sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Vi-te a destilar ao vento frio
Não percebia como te davas ao ar
Se dele retirávamos o conforto de viver
Os espasmos de sobreviver e lutar

Estava longe de ti e não me verias
Nem que olhasses bem para mim
Por mim
Por aqueles que se dissipam no fim

Oferecias-te por inteiro ao mundo
Num gesto de oculto altruísmo
Que destruiu pretensões e a terra
Que te queria prender os pés

Por isso destila, e voa
Que eu vou por onde já não doa.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Há anos em que nada aprendemos
E segundos que valem por uma vida

São nesses que nos perdoamos
Por tropeçarmos nas hipálages
Da existência
Ou nas metáforas sensaboronas.
No insípido que é mirar
Quem não é, mas faz por mostrar

Há momentos que se eternizam
É por esses que vivemos

Tudo isto digo porque hoje, sozinho
Com um cigarro e a visão apenas
De um comboio que abrandava
Aprendi
Que amar sem ter sofrido
É como abrir os olhos sem ter dormido

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

o prazer na devassa


Há um prazer na devassa do trágico pessoal, no borbulhar e no burburinho. É este um prazer que dói e mói, mas cujos espinhos fazem sangrar lágrimas de depravada felicidade. Chamo-lhe uma alegria só para mim, porque é em tudo diferente da outra, mais vulgar, e porque a esta retorno sem pudor, na esmagadora tentativa de ir descobrindo o que é amar, o que sou eu contigo na mente mas sem ti à minha frente.
Relembrar-te torna-se uma vez mais a pedra no sapato que escolho não sacudir porque aprendi a achar graça à dor.
Ter-te em mim é a minha homenagem a todos os que se arrastam sorrindo em riste a esse destino triste.
Carregar-te traz a noite e os uivos das ladainhas desgraçadas (a minha e a de todos).

Mas, acima de tudo isto, há o viver-te, e é sobre esse que lanço a milésima pedra da ponte que vai desabar na água.
Pois se há um inusitado desejo do infortúnio, dou outro passo e aqueço-me ao gozo de não me corresponderes.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Comi as estrelas ao firmamento
Engoli as luzes que orientam e
Mentem com quantos anos têm

Deixei o escuro da abóboda falar por si
E contar a história que ansiava
Hei-de lembrar-me pela hora matutina

Agora rio-me com um maníaco
Sabendo que os tenho todos em mim:
As estrelas, os tecidos e os pontilhados do céu

Sabendo que os navios
Já não apontam à saciedade do celeste
E que olhar a noite já não tem solução romântica ou bonita

Para que se lembrem do que havia
Terão de me cortar ao meio e buscar as estrelas que comi
Os abraços que não dei e as palavras que calei

Porque devolvendo o que do céu foi um dia
Devolverão também o que fechei
Em copas junto aos astros que engoli

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Da praxe


A semana acabou – uma das mais memoráveis da minha vida.
Diziam-me que praxar era mais cansativo que ser praxado. Eu não acreditava – como é que podia ser, se eu chegava a casa exausto, de unhas e cara pintada, com a roupa numa lástima?
Pois bem, é assim mesmo – porque andava de ténis e t-shirt, e hoje ando de traje (orgulhosamente), queimando as solas dos pés e traçando mesmo quando o calor aperta. Porque ao fim do dia não ia só dormir, ficava a pensar no que se faria amanhã e se estaria tudo pronto, e a preocupar-me que o tempo estivesse mau e não permitisse tudo o que os caloiros mereciam. Porque eles estavam a conhecer-se e a um mundo novo, e eu já tinha passado por isso.

Quando tracei a capa, no final do meu ano de caloiro, senti-me orgulhoso. Foi um momento, ainda mais que os anteriores, de pertença e igualdade.
Mas quando comecei a praxar, aprendi mais, e melhor. Trajei sentindo-me verdadeiramente feliz, gritei com forças que ainda não tinha descoberto e amei o meu curso e as minhas pessoas de uma forma simples – redescobri o prazer da vida académica.
A gravata que ao início era tão desconfortável, passou a ser impreterivelmente parte de mim – até porque nela podia colocar o presente do meu padrinho, um símbolo da pobreza do estudante (entendedores entenderão) que reforçava ainda mais a força de pertencer.
A mesma capa que me fez suar nos dias de calor aconchegou-me quando chegava a noite e o vento. Já quase lhe reconheço o cheiro de olhos fechados.

Na manhã do último dia da semana, trajei com uma certa sensação de vazio. Tinha sido uma das semanas mais divertidas da minha vida – como quando estive no lugar deles, mas de forma diferente – e estava a acabar.
Foi nesse dia que me tornei, pela primeira vez, padrinho académico de alguém. Antes disso, a emoção que eu observava nos veteranos e doutores no momento do apadrinhamento sempre me pareceu algo inexplicável. Mas quando finalmente estive no lugar deles entendi. Continua a ser algo inexplicável – mas senti-o.

Não deixo aqui o meu testemunho para que sirva de defesa incondicional ou universal à praxe. Tenho vários bons amigos que não participaram, por desinteresse ou mesmo por aversão, e souberam construir de uma forma saudável o seu percurso na universidade.
Faço-o para que se saiba que, mais que uma experiência incrível de diversão e camaradagem, pode ser enriquecedora e emocionante – tanto para os que são praxados como para os que praxam. Bem sei que a minha foi.

Uma pessoa que considero amiga, e que me praxou, deixou-nos este ano uma carta que me comoveu. Falava da sua experiência e da nossa, e ouvi-la foi para mim um momento de humildade e de carinho imenso.
Nessa carta, estavam presentes palavras que não devo esquecer nunca. Senti-as há um ano atrás, quando me ria com gosto ao me sujar e cantar, e vivi-as este ano quando vi o mesmo acontecer a outros:
“Bem-vindos a casa”.
Não podia ter dito melhor. Porque me sinto, de facto, em casa. E feliz.

terça-feira, 8 de julho de 2014

E no fim havia o sol
A luz que chega e se entrega
E a marca petulante de uma memória estendida

O rasgo no ser que se dilui
O travar das sensações atrozes
E dos escárnios do bem-te-disse

No fim jurei para nunca mais
Sabendo que promessas destas
Já eu menti a mim mesmo sem as cumprir nunca

Com a consciência dos futuros precários
Das fendas mutáveis do desejo
E dos momentos de feroz indiferença

No fim havia eu de te ter contado.
Logo a ti, que nem do princípio deste conta.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

há risos no cais
quando chegam amigos
família, e os demais
quando sopram nos canaviais,
ventos e murmúrios antigos

ah, se soubesses quem és
e o que me fizeste
poderia cair a teus pés
poderias saber-me de revés
admira como me desfizeste

mas não sabes (e ainda bem)
vives ao sabor da inocência
desfrutas de ficar aquém
e deixam-te ainda também
um ser em ingénua existência

não será sempre assim
por mim, viveria contente
só de te olhar por entre a gente
mas todo o caminho chega ao fim
não há um que não assente

deixo a poeira assentar
fico por aqui, sem grande desígnio
guardo, porém, o pequeno fascínio
durará enquanto durar
enquanto prosseguir o declínio

do que sinto e que não sabes,
do que só minto e onde tu cabes

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

perdi-te

Perdi-te
No norte do caminho, deixei-te à beira da estrada
Mas é de madrugada agora, e lembro-me
de quando caminhávamos juntos, de braço dado.

Quis enganar-me a mim próprio
Dilacerar as flores que cresciam à frente dos teus pés
Só consegui deixar de te ver na bifurcação da vida.

E o rosado do céu ri-se destas conclusões,
clareando mais ainda

Se com a luz que resplandece
te vejo a ficar cada vez mais para trás
E outros que nunca vi se me vão juntando no caminho.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

éramos dez reis de gente
quando te disse que amava
ser uno com o mundo agora

passaram anos e luzes
cidades matrizes vieram
e me propuseram a isto

à sombra de não saber
a distância do caminho
nem o adeus ao que fui

embacia-se o copo sujo
a taça de vinho que pedi
num café da minha rua

fumos modestos que vivi
espelhos que não mostram já
quem tentei um dia ser

não lhe chamaria mágoa
mas antes a água de uma vida
limpando a poeira de crescer

não durmo, de medo da aurora
mas o sol torna e reconforta
até novo despontar de breu

em tempos não me comovi.
cuidava de sensações que não tinha
hoje, aperto-me ao calor da madrugada

remexo os sabores ébrios
morro pelos laivos de sonhos
brilhantes, e que me levam

queria ver-te de novo
mas por um mal que não fiz,
separou-nos o avançar do tempo

mas ainda resta o balançar do corpo
e as lembranças que perduram,
mais os tempos de olhos fechados

o meu passado já vai noutra estação
apeei-me à espera dele
mas segue em comboio que não pára

talvez um dia volte a paz
de me reconhecer o reflexo.
por agora, deixo-me à deriva


(17 de Setembro)