sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Da praxe


A semana acabou – uma das mais memoráveis da minha vida.
Diziam-me que praxar era mais cansativo que ser praxado. Eu não acreditava – como é que podia ser, se eu chegava a casa exausto, de unhas e cara pintada, com a roupa numa lástima?
Pois bem, é assim mesmo – porque andava de ténis e t-shirt, e hoje ando de traje (orgulhosamente), queimando as solas dos pés e traçando mesmo quando o calor aperta. Porque ao fim do dia não ia só dormir, ficava a pensar no que se faria amanhã e se estaria tudo pronto, e a preocupar-me que o tempo estivesse mau e não permitisse tudo o que os caloiros mereciam. Porque eles estavam a conhecer-se e a um mundo novo, e eu já tinha passado por isso.

Quando tracei a capa, no final do meu ano de caloiro, senti-me orgulhoso. Foi um momento, ainda mais que os anteriores, de pertença e igualdade.
Mas quando comecei a praxar, aprendi mais, e melhor. Trajei sentindo-me verdadeiramente feliz, gritei com forças que ainda não tinha descoberto e amei o meu curso e as minhas pessoas de uma forma simples – redescobri o prazer da vida académica.
A gravata que ao início era tão desconfortável, passou a ser impreterivelmente parte de mim – até porque nela podia colocar o presente do meu padrinho, um símbolo da pobreza do estudante (entendedores entenderão) que reforçava ainda mais a força de pertencer.
A mesma capa que me fez suar nos dias de calor aconchegou-me quando chegava a noite e o vento. Já quase lhe reconheço o cheiro de olhos fechados.

Na manhã do último dia da semana, trajei com uma certa sensação de vazio. Tinha sido uma das semanas mais divertidas da minha vida – como quando estive no lugar deles, mas de forma diferente – e estava a acabar.
Foi nesse dia que me tornei, pela primeira vez, padrinho académico de alguém. Antes disso, a emoção que eu observava nos veteranos e doutores no momento do apadrinhamento sempre me pareceu algo inexplicável. Mas quando finalmente estive no lugar deles entendi. Continua a ser algo inexplicável – mas senti-o.

Não deixo aqui o meu testemunho para que sirva de defesa incondicional ou universal à praxe. Tenho vários bons amigos que não participaram, por desinteresse ou mesmo por aversão, e souberam construir de uma forma saudável o seu percurso na universidade.
Faço-o para que se saiba que, mais que uma experiência incrível de diversão e camaradagem, pode ser enriquecedora e emocionante – tanto para os que são praxados como para os que praxam. Bem sei que a minha foi.

Uma pessoa que considero amiga, e que me praxou, deixou-nos este ano uma carta que me comoveu. Falava da sua experiência e da nossa, e ouvi-la foi para mim um momento de humildade e de carinho imenso.
Nessa carta, estavam presentes palavras que não devo esquecer nunca. Senti-as há um ano atrás, quando me ria com gosto ao me sujar e cantar, e vivi-as este ano quando vi o mesmo acontecer a outros:
“Bem-vindos a casa”.
Não podia ter dito melhor. Porque me sinto, de facto, em casa. E feliz.

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