A semana acabou – uma das mais
memoráveis da minha vida.
Diziam-me que praxar era mais
cansativo que ser praxado. Eu não acreditava – como é que podia ser, se eu
chegava a casa exausto, de unhas e cara pintada, com a roupa numa lástima?
Pois bem, é assim mesmo – porque andava
de ténis e t-shirt, e hoje ando de traje (orgulhosamente), queimando as solas
dos pés e traçando mesmo quando o calor aperta. Porque ao fim do dia não ia só dormir,
ficava a pensar no que se faria amanhã e se estaria tudo pronto, e a
preocupar-me que o tempo estivesse mau e não permitisse tudo o que os caloiros
mereciam. Porque eles estavam a conhecer-se e a um mundo novo, e eu já tinha
passado por isso.
Quando tracei a capa, no final do
meu ano de caloiro, senti-me orgulhoso. Foi um momento, ainda mais que os
anteriores, de pertença e igualdade.
Mas quando comecei a praxar,
aprendi mais, e melhor. Trajei sentindo-me verdadeiramente feliz, gritei com
forças que ainda não tinha descoberto e amei o meu curso e as minhas pessoas de
uma forma simples – redescobri o prazer da vida académica.
A gravata que ao início era tão
desconfortável, passou a ser impreterivelmente parte de mim – até porque nela
podia colocar o presente do meu padrinho, um símbolo da pobreza do estudante
(entendedores entenderão) que reforçava ainda mais a força de pertencer.
A mesma capa que me fez suar nos
dias de calor aconchegou-me quando chegava a noite e o vento. Já quase lhe
reconheço o cheiro de olhos fechados.
Na manhã do último dia da semana,
trajei com uma certa sensação de vazio. Tinha sido uma das semanas mais
divertidas da minha vida – como quando estive no lugar deles, mas de forma
diferente – e estava a acabar.
Foi nesse dia que me tornei, pela
primeira vez, padrinho académico de alguém. Antes disso, a emoção que eu
observava nos veteranos e doutores no momento do apadrinhamento sempre me
pareceu algo inexplicável. Mas quando finalmente estive no lugar deles entendi. Continua a
ser algo inexplicável – mas senti-o.
Não deixo aqui o meu testemunho
para que sirva de defesa incondicional ou universal à praxe. Tenho vários bons
amigos que não participaram, por desinteresse ou mesmo por aversão, e souberam
construir de uma forma saudável o seu percurso na universidade.
Faço-o para que se saiba que,
mais que uma experiência incrível de diversão e camaradagem, pode ser
enriquecedora e emocionante – tanto para os que são praxados como para os que
praxam. Bem sei que a minha foi.
Uma pessoa que considero amiga, e
que me praxou, deixou-nos este ano uma carta que me comoveu. Falava da sua
experiência e da nossa, e ouvi-la foi para mim um momento de humildade e de
carinho imenso.
Nessa carta, estavam presentes
palavras que não devo esquecer nunca. Senti-as há um ano atrás, quando me ria
com gosto ao me sujar e cantar, e vivi-as este ano quando vi o mesmo acontecer
a outros:
“Bem-vindos a casa”.
Não podia ter dito melhor. Porque
me sinto, de facto, em casa. E feliz.