segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Há anos em que nada aprendemos
E segundos que valem por uma vida

São nesses que nos perdoamos
Por tropeçarmos nas hipálages
Da existência
Ou nas metáforas sensaboronas.
No insípido que é mirar
Quem não é, mas faz por mostrar

Há momentos que se eternizam
É por esses que vivemos

Tudo isto digo porque hoje, sozinho
Com um cigarro e a visão apenas
De um comboio que abrandava
Aprendi
Que amar sem ter sofrido
É como abrir os olhos sem ter dormido

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

o prazer na devassa


Há um prazer na devassa do trágico pessoal, no borbulhar e no burburinho. É este um prazer que dói e mói, mas cujos espinhos fazem sangrar lágrimas de depravada felicidade. Chamo-lhe uma alegria só para mim, porque é em tudo diferente da outra, mais vulgar, e porque a esta retorno sem pudor, na esmagadora tentativa de ir descobrindo o que é amar, o que sou eu contigo na mente mas sem ti à minha frente.
Relembrar-te torna-se uma vez mais a pedra no sapato que escolho não sacudir porque aprendi a achar graça à dor.
Ter-te em mim é a minha homenagem a todos os que se arrastam sorrindo em riste a esse destino triste.
Carregar-te traz a noite e os uivos das ladainhas desgraçadas (a minha e a de todos).

Mas, acima de tudo isto, há o viver-te, e é sobre esse que lanço a milésima pedra da ponte que vai desabar na água.
Pois se há um inusitado desejo do infortúnio, dou outro passo e aqueço-me ao gozo de não me corresponderes.