segunda-feira, 2 de agosto de 2010

As gotas escorrem pela rocha. Escorrem como escorre a vida pelas mãos do velho que anseia por anos que já escorreram com ele para fora de si mesmo.
Escorrem como desaparece a dita felicidade daqueles que se sentem apagados por dentro, por fora, pelos outros. Correm indiferentes, lentas, olhando o mundo como o mundo se habituou a olhar a si mesmo erroneamente, julgando superioridades mores que nunca lá estiveram realmente.

Escorrem como desliza suave o sonho de uma criança, o sono de um jovem, a insónia de um adulto, a noite de um idoso.
Repetem-se sobre si próprias, carpindo ambições e desejos que sabem nunca vir a concretizar, mas que as confortam eternamente na promessa do que são.
Pingam maldições umas pelas outras, refugiando-se noutras que pensam ser suas e que julgam sentir a mesma afeição que, na realidade, não são capazes de sentir senão por si mesmas.

Gotejam amor por outras, quando as outras não amam como elas, quando as outras já amavam muito antes das primeiras, pois gota que é gota nunca chegaria a verdadeira água. Não passaria de entidade individual.

Pendem pela rocha, seguindo caminhos; chorando como só podem (e sabem) chorar aqueles que, andando em conjunto, seguem sozinhos pelas dissidências da vida.

Correm as gotas pela rocha, que são metáforas para a dura realidade, e a afeição que nunca espero que venhas a sentir por mim prima apenas pela ausência que me magoa todos os momentos da minha vida.

Três gotas. Duas felizes por se terem uma à outra, sorrindo placidamente à paixão que as uniu...
E a terceira que se afasta à distância, de olhos fechados, mas de lágrima no olho, feliz também à sua triste maneira por saber que feliz é a gota que ama, com outra que escolheu para amar.

5 comentários:

Vitor disse...

Miguel, para quem tão bem escreve, apareces muito pouco…dá-nos o prazer de nos deliciar com a tua escrita amiúdas vezes…fantástico texto este!

redjan disse...

Há gotas que são oceanos .. e a vida guarda-as para que o mar saiba ser sempre forte!
Que sorte tenho eu, tem o Kuka, tem a Mãe ... de sermos teus e de te termos !
Entendes isso?

Alpha disse...

Adorei Miguel... é lindo.Valeu a pena esperar pela tua inspiração de novo... passei aqui algumas vezes e estranhava a ausência...Férias, imaginei. Ainda bem que voltaste para nos encantar de novo com esse dom que tens. bjinhos, sê feliz.

Nádia (da tia Olga) disse...

Miguel, que saudades! Queremos tanto mais!
Que texto lindo.
Como é que esta articulação fantástica de palavras sai da cabeça de um adolescente que é tão igual aos outros e, no entanto, tão acima da média deles?
Espantas-me. Muito. Que bom! Que orgulho.
Um beijinho grande.

Pretérito Imperfeito disse...

nadia: que bom saber que por aqui passas e gostas do que vês. tambem ja sei que este meu texto andou por aí a dar umas voltas a uns certos professores, mas claro que não há problema nenhum e podias ter pedido logo... quer dizer, se o pessoal já come sushi juntos tambem ja tem um certo grau de confiança... ou não??

alfa: a inspiração, a inspiração... é tramada, mas vem. vem é cada vez menos para aqui e cada vez mais para cadernos de escrita à mão (um dia espero também que possas lê-los e gostar deles!)

vitor: obrigado uma vez mais pelo elogio e que se volte a vila franca para outra almoçarada!)

pai: sorte vossa e minha por nos termos uns aos outros, e com tanto amor, mesmo que por vezes as palavras não o digam...