terça-feira, 22 de setembro de 2009

Liberdades

Guiava o carro pela estrada fora. Tinha saído da cidade; passava por edifícios esparsos, aqui e ali, o vulgar como cenário. Continuou a guiar. Chegou a uma zona isolada, onde desligou o carro. Rapidamente, tirou o fato entediante que usara o dia todo, tirou a gravata, tirou os sapatos. Colocou uma roupa confortável e despenteou o cabelo. Quem tivesse visto aquele personagem alguns momentos atrás não o reconheceria.
Voltou a enfiar-se no carro. Recomeçou a guiar até avistar uma curva que desembocava, ao fundo, numa casa sozinha com vista para o mar. Desligou o carro e saiu.

O ambiente era o mais improvável. Naquela casinha, tão pacata por fora, começavam os prazeres - o prazer. Acabava o mundo e começava a fantasia. Num gosto irreal... pela dança.
Deslizou pela pista, o som já a entrar-lhe na cabeça, e começou também a dançar. Ninguém o conhecia e todos o conheciam. Ali não haviam problemas, identidades, confusões quotidianas - era apenas movimento, e ritmo, e risos. Era só e apenas dança.
Dançou toda a noite sem parar, até se sentir completamente satisfeito com a vida.

Quem somos nós? Somos pessoas, decerto. Pessoas como as outras. Cada um nos seus assuntos. E que paixões temos nós? Paixões que reprimimos e afogamos no nosso âmago porque pensamos que não são decentes, ou práticas, ou aceitáveis? Muitas vezes.
A questão é... Se a vida já é complicada por ela própria, e se ainda estivermos aqui a empurrar os nossos desejos para baixo... É ainda pior. O sujeito gostava de dançar, mas dançava isolado do mundo porque talvez o mundo não aceitasse a sua dança. E por vezes é melhor que nada, mas mesmo assim...

Há que afirmar o que queremos. Senão nunca mais andamos para a frente!

Um comentário:

redjan disse...

Miguel.... escreves bem... pensas bem .. pensas livre. Como gosto e desejo que o faças sempre. Livre... para dizer, escrevendo ... o que te vai nessa alma de adolescente/rapaz/homem...

Pai