O meu nome não interessava para a situação. Era a minha vida que rodava na roleta, como aquelas bolas brancas pequenas que só o destino, com muita sorte, pode conduzir para a nossa aposta.
Tudo mudava. Tudo. Abandonara um espaço só meu havia pouco tempo... Abandonara-o, não obstante a necessidade de o fazer, abandonara a segurança que tinha criado ao longo dos últimos anos.
E com esse abandono, deixava também as pessoas que tinham tornado possível e agradável essa mesma segurança...
Estava no limbo. O que fazer a seguir? As saudades rebentavam pelos velhos tempos, num doloroso relembrar, mas sabia que era impossível voltar atrás. Eu sabia que a vida não volta atrás. A bola branca só anda num sentido... E é para a frente. Onde vai parar, isso é algo que nos é superior. É algo acima de nós.
O que fazer? Era a minha pergunta. Era medo o que sentia? Era insegurança? Era tristeza? Um pouco de todos. Sentia-o todos os dias, sem excepção.
As dúvidas... São algo terrível. Fecham-se dentro de nós, prendem-nos o movimento e o pensamento, minam a nossa personalidade, assolam-nos com sentimentos que não queremos sentir. Mas elas estão lá. E enquanto o tempo não passava, as minhas também estavam lá. Impenetráveis. Impassíveis. Frias. Queria expulsá-las.
Pergunto-me se a mudança é, de facto, melhor. É outra daquelas coisas que nos ultrapassam. Se a vida nos corre mal, a mudança deve ser bem-vinda, e não se reclama contra ela.
Mas se a vida nos é confortável, se nos corre bem, se estamos bem posicionados no tabuleiro de xadrez... Como eu estava... Tememos a mudança. Tememos o que ela acarreta. Tememos a nova adaptação, o novo mundo. Eu receava tudo isso. E receava-o acima de qualquer outra coisa.
Eu era apenas mais um no mundo... Outro ponto insignificante nessa confusão sórdida que é a sociedade.
Mas as minhas dúvidas... Não sabia se alguém, em algum lado, poderia duvidar tanto como eu. Parecia-me impossível, irracional.
Mas não era verdade.
Muitas vezes pensamos que somos os mais sofridos. É um clássico do drama. Está aí a resposta. Drama. É isso que somos. Um drama, um teatro representado constantemente. Uma luta de animais selvagens onde ganha quem for o último a conseguir manter-se de pé na rocha.
E eu não tinha ganho. Tinha caído, juntamente com outros, num abismo de medos, de dúvidas.
Hoje vejo isto como a natureza. Os problemas rebentam, como as ondas, e as pessoas estão lá para as receber, como a areia.
A dúvidas caem, como a chuva, e as pessoas têm de saber lavar-se delas, como a pedra fria.
A esperança nasce de onde menos se espera, como uma pequena flor por entre um baixio escondido, e temos de saber apreciá-la e tratar dela.
Os animais lutam, ajudam-se, evoluem, aprendem, tal como os humanos o fazem.
E todos assistimos a isto, e todos assistimos à mudança. Porque não há volta a dar, por mais que nos entristeçamos e pensemos que temos saudades do que passou, do que lá vai - como eu tinha, aliás, e muitas! - a vida é aquela bolinha na roleta do casino, com toda a gente em volta a olhar, com toda a gente a rezar para que ela pare no nosso buraquinho, como desejávamos...
E a bolinha acaba por parar, não no nosso, mas no de outra pessoa. Que por sua vez, viu a bolinha a cair no buraco de outra pessoa e se entristeceu também.
Não o conseguimos controlar. Nunca.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
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6 comentários:
Plagiando um pouco, uma frase e, título do livro de um amigo comum”pensamentos elevados”…os teus.
Abraço
P.S.-Diz aí ao teu“velhote”, que temos uma desforra de snooker a realizar na pocariça ;-)
Miguel ... ainda bem que não gostas de futebol.
Escreves dez, cem, mil vezes melhor do que alguma vez eu soube futebolar.
Vai... pelo teu caminho .. estarei aqui a aprender a ser Pai. De um filho enorme como tu..
Miguel, não te digo que a vida não é bem assim como a descreves porque isso seria uma presunção de sapiência, que não tenho. Nem eu nem ninguém. A vida é tua e tu saberás encontrar o caminho. O facto de escreveres sobre as dúvidas que te apoquentam ajuda-te a pensar melhor e esse, digo eu, pode ser o ganho substancial que aqueles que escrevem tiram deste bom hábito. Grande abraço
Li agora "Bola Branca". Bem escrito. Mas às vezes a "bola" também entra no nosso buraquinho".
Bj/Avó Tila
Estava a chorar quando li o "pretérito Imperfeito",continuei, porque estava com uma dor profunda,de perda. Mas a dor diminui e fez-me realmente reflectir obre muitas passagens e verdades sentidas e expressas por ti, é tudo um drama e nada é um drama. Existem poucas verdades absolutas, uae delas é que o tempo não volta para trás.
Miguel, parabens tenho muito orgulho em ser tua tia.
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