Corria.
Corria descalço pela pedra fria, a noite já cerrada. As roupas deixavam muito a desejar, rasgadas e sujas. Mas corria na mesma, corria como nunca. Todos se haviam já recolhido ao conforto do lar. Menos ele. Ele corria na rua, com as mãos geladas e olhar obstinado. Sentia que nada mais interessava, pensava que nunca ia parar de correr. Sentia-se verdadeiramente forte e ao mesmo tempo, desesperadamente fraco e necessitado. Mas corria; corria como se tudo dependesse disso. Os poucos que ainda passeavam na rua paravam, olhavam, comentavam, mas depressa esqueciam e prosseguiam. E assim correu durante muito tempo, não sentindo cansaço, ou fadiga, ou sonolência. Chegara às imediações da cidade. A partir daqui, um trilho sinuoso de terra batida conduzia a campos, pradarias, e a uma enorme praia deserta. Foi para aqui que se dirigiu, ansiando por poder correr mais, por poder afastar-se do veneno urbano. E foi aqui que ele deu asas aos pés, descalço mas feliz, e correu pela praia com o vento frio nos cabelos. Por um momento, por um único e singular momento, parou e olhou o mar. Depois, continuou, continuou a correr para o desconhecido.
sábado, 20 de dezembro de 2008
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6 comentários:
Aos deserdados da vida, por vezes não lhes resta outra solução que a de correr para o desconhecido, perante a indiferença deste mundo em que vivemos.
Afortunado serás tu, pelo dom que vai crescendo em ti, de transformar pensamentos em histórias bem narradas.
Miguel: BRILLIANT !!!!!!!!!!!!
Vai até onde te apetecer ... nunca páres ...
Corre Miguel, até onde a tua escrita te levar..
Miguel, que este Natal te dê as coisas que desejas e o Ano Novo te ajude a correr para onde queres, com asas nos pés ou com bons sapatos!
Grande abraço.
Miguel,
Corre,corre de encontro aos teus sonhos...e sonha,cada vez mais longe...
Como diz no poema de Manuel Freire "Pedra Filosofal"...
(...)
"Eles não sabem nem sonham
Que o sonho comanda a vida
E que sempre que o homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos duma criança"...
Beijos
Graça
E não é para o desconhecido que vamos todos, uns caminhando outros arrastando-se?
Feliz és se vais correndo, pronto a abarcar o que quer que te espere num abraço, de coração ligeiro e palavras como estas seguindo-te num rasto de sonhos ...
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