Guiava o carro pela estrada fora. Tinha saído da cidade; passava por edifícios esparsos, aqui e ali, o vulgar como cenário. Continuou a guiar. Chegou a uma zona isolada, onde desligou o carro. Rapidamente, tirou o fato entediante que usara o dia todo, tirou a gravata, tirou os sapatos. Colocou uma roupa confortável e despenteou o cabelo. Quem tivesse visto aquele personagem alguns momentos atrás não o reconheceria.
Voltou a enfiar-se no carro. Recomeçou a guiar até avistar uma curva que desembocava, ao fundo, numa casa sozinha com vista para o mar. Desligou o carro e saiu.
O ambiente era o mais improvável. Naquela casinha, tão pacata por fora, começavam os prazeres - o prazer. Acabava o mundo e começava a fantasia. Num gosto irreal... pela dança.
Deslizou pela pista, o som já a entrar-lhe na cabeça, e começou também a dançar. Ninguém o conhecia e todos o conheciam. Ali não haviam problemas, identidades, confusões quotidianas - era apenas movimento, e ritmo, e risos. Era só e apenas dança.
Dançou toda a noite sem parar, até se sentir completamente satisfeito com a vida.
Quem somos nós? Somos pessoas, decerto. Pessoas como as outras. Cada um nos seus assuntos. E que paixões temos nós? Paixões que reprimimos e afogamos no nosso âmago porque pensamos que não são decentes, ou práticas, ou aceitáveis? Muitas vezes.
A questão é... Se a vida já é complicada por ela própria, e se ainda estivermos aqui a empurrar os nossos desejos para baixo... É ainda pior. O sujeito gostava de dançar, mas dançava isolado do mundo porque talvez o mundo não aceitasse a sua dança. E por vezes é melhor que nada, mas mesmo assim...
Há que afirmar o que queremos. Senão nunca mais andamos para a frente!
terça-feira, 22 de setembro de 2009
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Bola Branca
O meu nome não interessava para a situação. Era a minha vida que rodava na roleta, como aquelas bolas brancas pequenas que só o destino, com muita sorte, pode conduzir para a nossa aposta.
Tudo mudava. Tudo. Abandonara um espaço só meu havia pouco tempo... Abandonara-o, não obstante a necessidade de o fazer, abandonara a segurança que tinha criado ao longo dos últimos anos.
E com esse abandono, deixava também as pessoas que tinham tornado possível e agradável essa mesma segurança...
Estava no limbo. O que fazer a seguir? As saudades rebentavam pelos velhos tempos, num doloroso relembrar, mas sabia que era impossível voltar atrás. Eu sabia que a vida não volta atrás. A bola branca só anda num sentido... E é para a frente. Onde vai parar, isso é algo que nos é superior. É algo acima de nós.
O que fazer? Era a minha pergunta. Era medo o que sentia? Era insegurança? Era tristeza? Um pouco de todos. Sentia-o todos os dias, sem excepção.
As dúvidas... São algo terrível. Fecham-se dentro de nós, prendem-nos o movimento e o pensamento, minam a nossa personalidade, assolam-nos com sentimentos que não queremos sentir. Mas elas estão lá. E enquanto o tempo não passava, as minhas também estavam lá. Impenetráveis. Impassíveis. Frias. Queria expulsá-las.
Pergunto-me se a mudança é, de facto, melhor. É outra daquelas coisas que nos ultrapassam. Se a vida nos corre mal, a mudança deve ser bem-vinda, e não se reclama contra ela.
Mas se a vida nos é confortável, se nos corre bem, se estamos bem posicionados no tabuleiro de xadrez... Como eu estava... Tememos a mudança. Tememos o que ela acarreta. Tememos a nova adaptação, o novo mundo. Eu receava tudo isso. E receava-o acima de qualquer outra coisa.
Eu era apenas mais um no mundo... Outro ponto insignificante nessa confusão sórdida que é a sociedade.
Mas as minhas dúvidas... Não sabia se alguém, em algum lado, poderia duvidar tanto como eu. Parecia-me impossível, irracional.
Mas não era verdade.
Muitas vezes pensamos que somos os mais sofridos. É um clássico do drama. Está aí a resposta. Drama. É isso que somos. Um drama, um teatro representado constantemente. Uma luta de animais selvagens onde ganha quem for o último a conseguir manter-se de pé na rocha.
E eu não tinha ganho. Tinha caído, juntamente com outros, num abismo de medos, de dúvidas.
Hoje vejo isto como a natureza. Os problemas rebentam, como as ondas, e as pessoas estão lá para as receber, como a areia.
A dúvidas caem, como a chuva, e as pessoas têm de saber lavar-se delas, como a pedra fria.
A esperança nasce de onde menos se espera, como uma pequena flor por entre um baixio escondido, e temos de saber apreciá-la e tratar dela.
Os animais lutam, ajudam-se, evoluem, aprendem, tal como os humanos o fazem.
E todos assistimos a isto, e todos assistimos à mudança. Porque não há volta a dar, por mais que nos entristeçamos e pensemos que temos saudades do que passou, do que lá vai - como eu tinha, aliás, e muitas! - a vida é aquela bolinha na roleta do casino, com toda a gente em volta a olhar, com toda a gente a rezar para que ela pare no nosso buraquinho, como desejávamos...
E a bolinha acaba por parar, não no nosso, mas no de outra pessoa. Que por sua vez, viu a bolinha a cair no buraco de outra pessoa e se entristeceu também.
Não o conseguimos controlar. Nunca.
Tudo mudava. Tudo. Abandonara um espaço só meu havia pouco tempo... Abandonara-o, não obstante a necessidade de o fazer, abandonara a segurança que tinha criado ao longo dos últimos anos.
E com esse abandono, deixava também as pessoas que tinham tornado possível e agradável essa mesma segurança...
Estava no limbo. O que fazer a seguir? As saudades rebentavam pelos velhos tempos, num doloroso relembrar, mas sabia que era impossível voltar atrás. Eu sabia que a vida não volta atrás. A bola branca só anda num sentido... E é para a frente. Onde vai parar, isso é algo que nos é superior. É algo acima de nós.
O que fazer? Era a minha pergunta. Era medo o que sentia? Era insegurança? Era tristeza? Um pouco de todos. Sentia-o todos os dias, sem excepção.
As dúvidas... São algo terrível. Fecham-se dentro de nós, prendem-nos o movimento e o pensamento, minam a nossa personalidade, assolam-nos com sentimentos que não queremos sentir. Mas elas estão lá. E enquanto o tempo não passava, as minhas também estavam lá. Impenetráveis. Impassíveis. Frias. Queria expulsá-las.
Pergunto-me se a mudança é, de facto, melhor. É outra daquelas coisas que nos ultrapassam. Se a vida nos corre mal, a mudança deve ser bem-vinda, e não se reclama contra ela.
Mas se a vida nos é confortável, se nos corre bem, se estamos bem posicionados no tabuleiro de xadrez... Como eu estava... Tememos a mudança. Tememos o que ela acarreta. Tememos a nova adaptação, o novo mundo. Eu receava tudo isso. E receava-o acima de qualquer outra coisa.
Eu era apenas mais um no mundo... Outro ponto insignificante nessa confusão sórdida que é a sociedade.
Mas as minhas dúvidas... Não sabia se alguém, em algum lado, poderia duvidar tanto como eu. Parecia-me impossível, irracional.
Mas não era verdade.
Muitas vezes pensamos que somos os mais sofridos. É um clássico do drama. Está aí a resposta. Drama. É isso que somos. Um drama, um teatro representado constantemente. Uma luta de animais selvagens onde ganha quem for o último a conseguir manter-se de pé na rocha.
E eu não tinha ganho. Tinha caído, juntamente com outros, num abismo de medos, de dúvidas.
Hoje vejo isto como a natureza. Os problemas rebentam, como as ondas, e as pessoas estão lá para as receber, como a areia.
A dúvidas caem, como a chuva, e as pessoas têm de saber lavar-se delas, como a pedra fria.
A esperança nasce de onde menos se espera, como uma pequena flor por entre um baixio escondido, e temos de saber apreciá-la e tratar dela.
Os animais lutam, ajudam-se, evoluem, aprendem, tal como os humanos o fazem.
E todos assistimos a isto, e todos assistimos à mudança. Porque não há volta a dar, por mais que nos entristeçamos e pensemos que temos saudades do que passou, do que lá vai - como eu tinha, aliás, e muitas! - a vida é aquela bolinha na roleta do casino, com toda a gente em volta a olhar, com toda a gente a rezar para que ela pare no nosso buraquinho, como desejávamos...
E a bolinha acaba por parar, não no nosso, mas no de outra pessoa. Que por sua vez, viu a bolinha a cair no buraco de outra pessoa e se entristeceu também.
Não o conseguimos controlar. Nunca.
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