O sol queimava a pele dos corajosos para o enfrentarem. Ele decidira manter-se dentro de casa até eles chegarem, por preguiça e desejo por um ambiente fresco. E esperou. Passado algum tempo, a campainha tocou, soando por toda a casa. Ela chegara. E convidou-a a entrar. Falaram, falaram até chegarem outras duas pessoas, que da mesma forma entraram e falaram.
O jardim oferecia sombras convidativas, que excluíam pelo menos o abrasivo perigo do sol directo. Decidiram sentar-se preguiçosamente, estendidos na relva verde e no meio de insectos e borboletas que por ali esvoaçavam. O objectivo era rever alguma coisa importante, mas perderam-se no meio de risos banhados pelo calor. Puseram os livros de lado e entreteram-se com jogos que os distraíssem do mundo lá fora - do mundo que os obrigava a encontrarem-se secretamente num jardim recôndito, rodeado por sebes altas.
E passaram a tarde, incógnitos no seio da amizade, na sensação de que esta se fortalecia com os mesmos sorrisos com que aumentava um amor proibido - e o mais apetecido.
Assim, quando essa aventura misteriosa que é a noite deu sinais de querer estender o seu manto velado sobre os domínios de Apolo, decidiram que sairiam do jardim para as ruas, desertas pelos últimos vestígios de um calor dominante. E assim fizeram, levando com eles risos e promessas de repetição. Foi quando se dirigiram a casa dela, ansiosos por uma paragem. As fontes cantavam a sua melodia aquática, rodeadas de jardins floridos e uma piscina que entoava a chamada das sereias para aqueles que haviam passado o dia sobre os braços do Sol.
Entraram. Entraram os quatro para a fresca escuridão de uma casa coberta de pedra e cal. E ela sentou-se e tocou, tocou melodias que ressoavam pela casa, pelo jardim, pelo mundo. Ele sentara-se, combalido com dores de exercícios passados, mas atento ao som que aquelas mãos conseguiam fazer penetrar directamente no coração dos presentes. E os outros dois sorriam, ouviam, sentiam-se maravilhados por uma música que deveria ser ouvida ao longe. Notas graves eram tocadas à medida que ele gozava com o instrumento; e ela era ensinada pela melhor amiga.
Nessa altura, já um pouco fartos de uma aprendizagem inútil (mas divertida), eles os dois dirigiram-se à varanda, onde o Sol já pouca vida tinha e fazia a sua espectacular saída no horizonte. E aí falaram de assuntos sérios, que os preocupavam, e ele assegurou o seu melhor amigo de que não era por falta de vontade dela, mas por assuntos de valores morais e importância maior. Era absolutamente necessário que ele entendesse, que percebesse a paixão escondida por entre aquelas rejeições e sorrisos de espera que o perturbavam.
E elas reapareceram, prontas para uma outra volta pelas ruas ainda desertas, que se despediam da luz do dia e davam lugar a uma escuridão convidativa. E assim foram. Desceram uma sinuosa estrada até chegarem a uma saída para um campo de golfe amplo, vazio. E correram os quatro, para a relva, para a areia, para minutos de frescura e mais sorrisos.
Quando saíram, voltaram a subir a sinuosa rua, e decidiram voltar à casa inicial para o jantar. Após a refeição relativamente pacífica, não se sentiam bem fechados em casa. Por esta altura, já a escuridão obtivera o seu maior prémio, e os quatro escolheram voltar a sair para a noite, para essa amante misteriosa que é a aventura.
E ao voltarem à saída para um outro campo de golfe pelo qual tinham passado há horas, penetraram nas suas profundezas, com uma agradável sensação assustadora de serem observados. Foi então que um grito cortou a noite, e correram de novo para as ruas vagamente iluminadas pela electricidade. O grito tinha vindo dela, que apanhara um susto com algo insignificante. Riram-se, e continuaram a descer a rua, prontos para entrar numa outra ramificação do campo de golfe, esta ainda mais escura e sombria. Andaram, percorreram o caminho que os levaria ao coração do campo de golfe, a uma área enorme e ampla, escura como breu mas iluminada por um subtil luar, e aí se sentaram, iluminados pelas suaves luzes dos pirilampos, que emanavam a beleza de duas mãos dadas, e de outras duas bocas abertas de par em par num enorme sorriso de dentes brancos.
E chegou a altura em que ela tinha de se ir embora, por causa da maldição horária. Ele decidiu acompanhá-la de novo à rua, deixando-os sozinhos para o destino poder trabalhar à vontade. E regressaram pelo caminho até à rua, indirectamente olhando por cima do ombro para concluir que, de facto, não estavam a ser seguidos nem observados no meio das sombras.
Ela foi-se embora, acenando, e só restava ao rapaz regressar ao campo de golfe passado um bom bocado, pensando que, se o destino era decente, se gostava de ver duas almas perfeitas entrelaçadas nas cordas da paixão, havia feito alguma coisa, alguma demonstração de... E regressou, profundamente assustado pela completa ausência de seres vivos nas ruas, pela ausência de barulhos, que o levava a formar imagens horríveis na sua imaginação. Quando chegou à entrada do campo, sentiu-se aliviado e ainda mais assustado, pois faltava agora começar a percorrer o caminho que o levaria até à artéria onde estavam sentadas as outras duas pessoas. Tentou demorar-se, mas o seu olho detectava perigos imaginários por trás de cada arbusto, cada árvore. Apressou o passo e ouviu ao longe o riso inconfundível da rapariga. Sentiu-se um pouco acalmado.
Quando chegou, sentou-se ao lado deles e começou a falar. E eles explicaram, por entre risos cúmplices, que não. Não. Nada. Ele ficou perplexo, confuso por terem desperdiçado uma oportunidade fantástica. E riram-se de novo, por entre tentativas dele de roubos fogosos e os olhares que ela mandava e que enfeitiçavam o seu cabelo claro.
Levantaram-se e saíram do campo pelo outro lado. Desceram a principal rua, e a mais comprida do povoado. Ele sentia-se posto de parte, e sentia-se muito feliz por isso estar a acontecer, por era o que mais desejava, naquele contexto. As luzes iam e vinham, deixando-os constantemente nesse benefício amoroso que é a escuridão. Atravessaram uma ponte sobre uma estrada em construção, enorme, vazia, que fazia lembrar filmes vistos há muito tempo.
E foi aí que, sobre a forma de uma chamada telefónica, tiveram que voltar. Eles, corteses, consentiram em acompanhá-la a casa, voltando então a subir a comprida rua principal e a virar à esquerda para uma outra rua escondida. Chegaram a casa dela. Não entrariam, mas chegava a altura das despedidas. Ele despediu-se dela com um amigável beijo na bochecha, e depois teve a atenção de se fingir profusamente interessado numa placa que anunciava a construção breve de um qualquer condomínio. Mas pelo canto do olho observava o que se passava e sorria levemente, deixando-se levar por uma felicidade que o encontrava ao vê-los abraçados, como que eternamente. Mas separaram-se e, acenando uma última vez, ela entrou nos portões. Sem nada dizer, ambos os rapazes recomeçaram a caminhada. Mas uma batida de portão voltou-se a ouvir, e um conjunto de passos leves ao mesmo tempo.
E então, a felicidade atingiu-o mais que nunca. Não havia parado de andar nem olhado para trás, mas não precisava de o fazer. Ela voltara para uma derradeira despedida, para colocar num beijo tudo o que quisera fazer durante o dia. E passado um tempo, talvez uns segundos, talvez umas horas, talvez anos a fio, ele percebeu que o seu amigo voltara a acompanhá-lo, e ambos sorriram.
A noite executara o seu ofício requintado. Trouxera o êxito de um fim de dia maravilhoso, acompanhado de um único e poderoso beijo. Não era preciso dizer nada. O calor da noite dizia tudo o que era necessário, e ele sorriu de novo. Não queria que a noite acabasse. Havia sido perfeita.
domingo, 31 de maio de 2009
segunda-feira, 11 de maio de 2009
As salas passadas
A preto e branco esquecidas
Num passado remexidas
Mas as tardes recordadas
Que juntos, criámos perdidos
E as expressões de amigos
Que nos fazem evocar divertidos
Tantas memórias apagadas
Mas tão presentes mesmo assim...
Leva-me isto a dizer, portanto:
Que em catorze anos de vida
Nunca tive outra amizade
Como esta...
Tão vivida.
A preto e branco esquecidas
Num passado remexidas
Mas as tardes recordadas
Que juntos, criámos perdidos
E as expressões de amigos
Que nos fazem evocar divertidos
Tantas memórias apagadas
Mas tão presentes mesmo assim...
Leva-me isto a dizer, portanto:
Que em catorze anos de vida
Nunca tive outra amizade
Como esta...
Tão vivida.
Assinar:
Comentários (Atom)