domingo, 12 de abril de 2009

Transportes Públicos

Antes de mais, e para aquecer o público antes de começar a canção, há que referir que eu sou um menino da cidade. Um mero eufemismo para "queque", bem se vê. A verdade é que desde tenra idade que sou levado pomposamente de carro para onde quero e/ou preciso, sem desconfortos e com a máxima comodidade de uma viatura particular. E sempre me contentei desta forma.

E é também por isso que os transportes públicos me fascinam. Encantam-me. Apaixonam-me. É pura ficção científica.

Há uns meses, andava num clube de teatro que ensaiava em Lisboa. Ora, para me irem buscar e pôr era chato como tudo - já se vê, desde Sintra/São Pedro a Picoas ainda são uns kilómetros e de carro hoje em dia as pessoas apanham mais ataques cardíacos que a comerem Big Macs como se não houvesse amanhã (se bem que estes têm de ter os seus créditos em letra maiúscula nas nossas doenças "cardio"...).
Portanto, começaram a deixar-me na estação do Estoril para eu ir de comboio até ao Cais do Sodré, e daí apanhar o metro para Picoas. Ao início a ideia não me agradava - sozinho, ou melhor, com mais mil e uma pessoas que eu nunca tinha visto e que, aos meus olhos, bem podiam ser assassinos, etc etc etc. Mas fui. E adorei. Adorei o metro. E adorei o comboio - desde as máquinas de bilhetes automáticos a escolher um lugar a observar as pessoas perto de mim. E safei-me sempre a horas - para lá e para cá.

Entretanto o teatro acabou e com ele acabaram as viagens de transportes, porque já não tinha de ir para Lisboa. Mas ainda há pouco tempo os meus amigos convidaram-me para ir passar a tarde com eles a Cascais. Estava em casa do meu pai, mas ele não podia levar-me devido à mais recente sensação - os mais chegados "Padeleiros" sabem a que me refiro...
E vi aí uma oportunidade; metia-me no comboio até Cascais, lá saía, e depois... Depois logo se via!

E assim fiz. Quando lá cheguei, encontrei os meus amigos juntos num grupo na Rua Direita e fomos dar um passeio. Inevitavelmente, começaram a faltar coisas para fazer depois de calcorrear Cascais e suas ruas a pé. Foi então que alguém sugeriu irmos para casa de um deles, na Quinta da Bicuda. Ora, da Rua Direita à Bicuda ainda é um esticão a pé e decidimos apanhar o famoso autocarro BusCas (popularmente conhecido como buscas), que parava lá perto. Eu, que nunca tinha andado de autocarro mais que uma dúzia de vezes, fiquei outra vez fascinado, com a forma como podia picar o bilhete logo a entrada. (Sou mesmo parolo...)
Na vinda de volta, a mesma coisa. Agora sozinho, porque os meus amigos ora iam de bicicleta ora de carro porque moravam longe, fui a pé até ao pé do Dramático, onde apanhei o BusCas de novo para a estação. Daí, apanhei o comboio até S. Pedro. Estava em casa quase às 8.

Uma vez durante o Verão de 2008, ao fim da tarde, estava eu a voltar de mais uma sessão de ensaios de teatro. Tinha que apanhar o metro até ao Cais do Sodré, onde iria apanhar o comboio até ao Estoril - onde a minha mãe me ia apanhar. Esperto como sou, decidi parar antes de entrar no metro para uma "merendinha". Lá paguei o lanche sem sequer olhar para o dinheiro que me restava e fui andando até à estação de Picoas. Quando lá cheguei, para comprar o bilhete, saquei um punhado de moedas dos bolsos e comprei o pedacinho de papel. Mal eu sabia que, chegando ao Cais do Sodré, não tinha dinheiro para mandar cantar um cego, e já não eram horas de se andar para ali a passear. Liguei à minha mãe para me vir buscar, mas àquelas horas o trânsito estava no seu melhor e ela disse-me para tentar resolver a situação (noutras palavras, "desenrasca-te"). Eu, inocente rapaz, decidi então sentar-me ao lado de uma senhora de aspecto antigo que ali repousava num banco. E disse eu então, da cabeça aos pés em roupa de marca...

"Eu sei que isto vai parecer estranho, mas... Eu não tenho dinheiro para voltar para casa... E precisava de comprar o bilhete de comboio..."
E a senhora lá olhou para mim de soslaio, abriu a carteira e me deu dois euritos, que eu aproveitei para comprar um bilhete de volta ao lar (a única máquina disponível era a mais longe da senhora - o destino estava determinado em fazer-me parecer um ladrão sem-abrigo). Voltei para devolver o troco e desfazer-me em desculpas e obrigados, e desculpas e obrigados. Mas como a sorte sempre me bafejou, quando cheguei ao comboio para entrar as portas estavam a fechar-se, e tive de esperar por outro que (lá estava a sorte), só chegava daí a 20 minutos e que não ia até ao Estoril, parando numa estação anterior na qual eu teria de apanhar outro metro (facto do qual só me apercebi quando o comboio estava quase voltar a andar para trás na dita estação).
E assim cheguei ao Estoril, a minha mãe à minha espera, eu a desfazer-me a rir.
Nada disso me tirou a loucura pelos transportes públicos, mas mesmo assim... Para a próxima como em casa.