sábado, 7 de fevereiro de 2009

Apenas Diálogo

- É louco!
- Mas é um génio!
- Sim, mas a quem pode salvar o talento quando a loucura é tão premente?
- Ora, não percebe nada disto, meu caro. Ele é tão brilhante que ofusca a mente. E todos nós sabemos como tamanha inteligência pode... "toldar" a sensatez de uma pessoa.
- Não caio nessa. Quanto mais esperto, mas sensato deveria ser. Não concorda?
- De todo. Acho até o contrário. Quanto mais esperto, e mais genial, como é o caso, mais imprevisível deve ser um homem! E que graça teria o mundo se não desta forma?
- Ainda não me convenceu! Sinto-me ludibriado por esta arrebatadora forma de ser.
- Meu caro, não acha que está a reagir de forma exagerada? Deixe lá o rapaz ser como quer e mostrar o talento ao mundo, que nós cá nos contentamos com a nossa vida. Deixe-o lá ser louco, como você afirma, e mostrar ao mundo o génio que pode ser!
- Não acha que está a regá-lo com demasiados elogios? É por isso que ele ficou assim; deixou-se levar por essa inebriante onda de cumprimentos e palavras idílicas de toda a gente...
- Suponho que por "assim" queira dizer "maluco"...?
- Óbvio. Mas não posso negar que gosto da obra dele. É simplesmente deliciosa. No entanto...
- No entanto...?
- No entanto, nada. Não gosto de como ele é. Sem postura! Sem dignidade! Sem.. sem nada, percebe?
- E se ele tiver a sua própria dignidade?
- Ora, então essa foge muito aos padrões impostos!
- Talvez seja essa a ideia, meu caro amigo! Talvez seja isso mesmo que ele quer.
- Atenção?
- Sim... e não. Talvez queira simplesmente... destacar-se no meio de uma matilha de lobos esfomeados por cultura.
- Admiro o seu jogo de palavras, meu amigo, mas permaneço inabalável na minha opinião.
- Ah, essa sua tão vulgar opinião, meu caro.
- Acaso está a chamar-me obtuso?
- Entenda como quiser...!
- Ah, permita-me rir perante a sua forma de me olhar. Como eu pensam mil !
- Oh, sim, eu sei. Apenas gostava que não fosse assim.
- Tem então um longo caminho a percorrer, se pretende alterar o que a sociedade pensa e a forma como age.
- Talvez não tenha.
- Ah, deixe de ser sonhador. Ainda acaba como o rapaz de quem falámos. Que é, a propósito, completamente louco!
- Mas é um génio.