Gosto de chegar e acordar cedo. Gosto de estar em paz. Gosto de estar no meio do barulho. Gosto de me rir até doer a barriga com os meus amigos. Gosto de mandar piadas (ás vezes secas). Gosto de me afastar de vez em quando. Gosto de sair mais cedo das aulas. Gosto de não prestar atenção ao que me dizem.
Gosto de piano. Gosto do abstracto. Gosto de filosofar para dentro, de concluir para fora e de avançar para os lados. Gosto de olhar para o vazio enquanto penso. Gosto de causar boa impressão. Gosto de ser inteligente. Gosto de dizer que sou culto e aprecio a sofisticação. Gosto de ler. Gosto de ter uma estante cheia de livros. Gosto de escrever. Gosto de falar em inglês.
Gosto do frio. Gosto de lareiras. Gosto de chocolate. Gosto de chuva e vento (lá fora). Gosto de sofás, mantas e ambientes quentes. Gosto de um banho quente num dia gelado. Gosto de uma sala escura com uma televisão acesa. Gosto de velas. Gosto de uma janela alta por onde se veja o mau tempo. Gosto de relâmpagos. Gosto de apagões. Gosto de me rir à chuva quando a vida nos desagua em cima. Gosto do meu dia de anos. Gosto de aproveitar para fugir de casa e ir a algum sítio longínquo. Gosto de Ourém. Gosto da Suécia. Gosto de Nova Iorque. Gosto de Londres.
Gosto do calor. Gosto de me vestir de calções usados e t-shirts brancas. Gosto de me esconder à sombra para fugir à torreira do Sol. Gosto de passar dias pacíficos de Verão a deambular pela Beloura com os meus amigos. Gosto de desatar à gargalhada à beira de uma piscina num dia de férias. Gosto de combinar saídas para as noites quentes. Gosto de aproveitar para fugir de casa e ir para algum sítio longínquo. Gosto do Algarve. Gosto do Alentejo. Gosto do Brasil. Gosto da República Dominicana. Gosto de Moçambique.
Gosto da sopa bem fria ou a escaldar. Gosto da côdea do pão. Gosto de chupar limões. Gosto de comer Pirulin's como se não houvesse amanhã. Gosto de rebuçados de mentol. Gosto de salada com limão. Gosto de brownies e mousses de chocolate. Gosto de roubar pedras de sal e comer pelo caminho. Gosto de rodelas de chouriço em pão alentejano.
Gosto de chatear. Gosto de imitar um mosquito ao ouvido das pessoas. Gosto de fazer perguntas inconvenientes e de me rir com as respostas. Gosto de uma boa nota. Gosto de uma boa apresentação. Gosto de organização. Gosto de ir para a escola e gosto de não ouvir o despertador. Gosto de transportes públicos (quando chego a horas).
Gosto de representar. Gosto de ser o centro das atenções. Gosto de estar em palco. Gosto de me sentar numa roda a jogar verdade ou consequência quando não há mais nada para fazer. Gosto de festas. Gosto de um shot daqueles bem fortes, aqui e ali. Gosto de dançar. Gosto de cantar (desafinado). Gosto de música clássica. Gosto de rock. Gosto dos anos 80. Gosto de música francesa, latina e brasileira. Gosto de clássicos.
Gosto do Natal. Gosto de fazer a árvore com os anjinhos e as luzes e gosto de decorar a casa. Gosto de colocar aquele sapo, com ventosas nas patas, vestido de Pai Natal na janela da sala. Gosto do Ano Novo, da Páscoa, do Verão e do Halloween. Gosto que a família e os amigos se juntem.
Gosto de dizer que não gosto, mas gostar secretamente. Gosto de ajudar quando é preciso (se estiver para aí virado). Gosto de fingir-me desinteressado e estar em pulgas para saber mais.
Gosto de escrever textos a explicar em linhas sumárias tudo o que gosto.
Adoro ser eu próprio. E não, não gostava de ser outro.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Liberdades
Guiava o carro pela estrada fora. Tinha saído da cidade; passava por edifícios esparsos, aqui e ali, o vulgar como cenário. Continuou a guiar. Chegou a uma zona isolada, onde desligou o carro. Rapidamente, tirou o fato entediante que usara o dia todo, tirou a gravata, tirou os sapatos. Colocou uma roupa confortável e despenteou o cabelo. Quem tivesse visto aquele personagem alguns momentos atrás não o reconheceria.
Voltou a enfiar-se no carro. Recomeçou a guiar até avistar uma curva que desembocava, ao fundo, numa casa sozinha com vista para o mar. Desligou o carro e saiu.
O ambiente era o mais improvável. Naquela casinha, tão pacata por fora, começavam os prazeres - o prazer. Acabava o mundo e começava a fantasia. Num gosto irreal... pela dança.
Deslizou pela pista, o som já a entrar-lhe na cabeça, e começou também a dançar. Ninguém o conhecia e todos o conheciam. Ali não haviam problemas, identidades, confusões quotidianas - era apenas movimento, e ritmo, e risos. Era só e apenas dança.
Dançou toda a noite sem parar, até se sentir completamente satisfeito com a vida.
Quem somos nós? Somos pessoas, decerto. Pessoas como as outras. Cada um nos seus assuntos. E que paixões temos nós? Paixões que reprimimos e afogamos no nosso âmago porque pensamos que não são decentes, ou práticas, ou aceitáveis? Muitas vezes.
A questão é... Se a vida já é complicada por ela própria, e se ainda estivermos aqui a empurrar os nossos desejos para baixo... É ainda pior. O sujeito gostava de dançar, mas dançava isolado do mundo porque talvez o mundo não aceitasse a sua dança. E por vezes é melhor que nada, mas mesmo assim...
Há que afirmar o que queremos. Senão nunca mais andamos para a frente!
Voltou a enfiar-se no carro. Recomeçou a guiar até avistar uma curva que desembocava, ao fundo, numa casa sozinha com vista para o mar. Desligou o carro e saiu.
O ambiente era o mais improvável. Naquela casinha, tão pacata por fora, começavam os prazeres - o prazer. Acabava o mundo e começava a fantasia. Num gosto irreal... pela dança.
Deslizou pela pista, o som já a entrar-lhe na cabeça, e começou também a dançar. Ninguém o conhecia e todos o conheciam. Ali não haviam problemas, identidades, confusões quotidianas - era apenas movimento, e ritmo, e risos. Era só e apenas dança.
Dançou toda a noite sem parar, até se sentir completamente satisfeito com a vida.
Quem somos nós? Somos pessoas, decerto. Pessoas como as outras. Cada um nos seus assuntos. E que paixões temos nós? Paixões que reprimimos e afogamos no nosso âmago porque pensamos que não são decentes, ou práticas, ou aceitáveis? Muitas vezes.
A questão é... Se a vida já é complicada por ela própria, e se ainda estivermos aqui a empurrar os nossos desejos para baixo... É ainda pior. O sujeito gostava de dançar, mas dançava isolado do mundo porque talvez o mundo não aceitasse a sua dança. E por vezes é melhor que nada, mas mesmo assim...
Há que afirmar o que queremos. Senão nunca mais andamos para a frente!
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Bola Branca
O meu nome não interessava para a situação. Era a minha vida que rodava na roleta, como aquelas bolas brancas pequenas que só o destino, com muita sorte, pode conduzir para a nossa aposta.
Tudo mudava. Tudo. Abandonara um espaço só meu havia pouco tempo... Abandonara-o, não obstante a necessidade de o fazer, abandonara a segurança que tinha criado ao longo dos últimos anos.
E com esse abandono, deixava também as pessoas que tinham tornado possível e agradável essa mesma segurança...
Estava no limbo. O que fazer a seguir? As saudades rebentavam pelos velhos tempos, num doloroso relembrar, mas sabia que era impossível voltar atrás. Eu sabia que a vida não volta atrás. A bola branca só anda num sentido... E é para a frente. Onde vai parar, isso é algo que nos é superior. É algo acima de nós.
O que fazer? Era a minha pergunta. Era medo o que sentia? Era insegurança? Era tristeza? Um pouco de todos. Sentia-o todos os dias, sem excepção.
As dúvidas... São algo terrível. Fecham-se dentro de nós, prendem-nos o movimento e o pensamento, minam a nossa personalidade, assolam-nos com sentimentos que não queremos sentir. Mas elas estão lá. E enquanto o tempo não passava, as minhas também estavam lá. Impenetráveis. Impassíveis. Frias. Queria expulsá-las.
Pergunto-me se a mudança é, de facto, melhor. É outra daquelas coisas que nos ultrapassam. Se a vida nos corre mal, a mudança deve ser bem-vinda, e não se reclama contra ela.
Mas se a vida nos é confortável, se nos corre bem, se estamos bem posicionados no tabuleiro de xadrez... Como eu estava... Tememos a mudança. Tememos o que ela acarreta. Tememos a nova adaptação, o novo mundo. Eu receava tudo isso. E receava-o acima de qualquer outra coisa.
Eu era apenas mais um no mundo... Outro ponto insignificante nessa confusão sórdida que é a sociedade.
Mas as minhas dúvidas... Não sabia se alguém, em algum lado, poderia duvidar tanto como eu. Parecia-me impossível, irracional.
Mas não era verdade.
Muitas vezes pensamos que somos os mais sofridos. É um clássico do drama. Está aí a resposta. Drama. É isso que somos. Um drama, um teatro representado constantemente. Uma luta de animais selvagens onde ganha quem for o último a conseguir manter-se de pé na rocha.
E eu não tinha ganho. Tinha caído, juntamente com outros, num abismo de medos, de dúvidas.
Hoje vejo isto como a natureza. Os problemas rebentam, como as ondas, e as pessoas estão lá para as receber, como a areia.
A dúvidas caem, como a chuva, e as pessoas têm de saber lavar-se delas, como a pedra fria.
A esperança nasce de onde menos se espera, como uma pequena flor por entre um baixio escondido, e temos de saber apreciá-la e tratar dela.
Os animais lutam, ajudam-se, evoluem, aprendem, tal como os humanos o fazem.
E todos assistimos a isto, e todos assistimos à mudança. Porque não há volta a dar, por mais que nos entristeçamos e pensemos que temos saudades do que passou, do que lá vai - como eu tinha, aliás, e muitas! - a vida é aquela bolinha na roleta do casino, com toda a gente em volta a olhar, com toda a gente a rezar para que ela pare no nosso buraquinho, como desejávamos...
E a bolinha acaba por parar, não no nosso, mas no de outra pessoa. Que por sua vez, viu a bolinha a cair no buraco de outra pessoa e se entristeceu também.
Não o conseguimos controlar. Nunca.
Tudo mudava. Tudo. Abandonara um espaço só meu havia pouco tempo... Abandonara-o, não obstante a necessidade de o fazer, abandonara a segurança que tinha criado ao longo dos últimos anos.
E com esse abandono, deixava também as pessoas que tinham tornado possível e agradável essa mesma segurança...
Estava no limbo. O que fazer a seguir? As saudades rebentavam pelos velhos tempos, num doloroso relembrar, mas sabia que era impossível voltar atrás. Eu sabia que a vida não volta atrás. A bola branca só anda num sentido... E é para a frente. Onde vai parar, isso é algo que nos é superior. É algo acima de nós.
O que fazer? Era a minha pergunta. Era medo o que sentia? Era insegurança? Era tristeza? Um pouco de todos. Sentia-o todos os dias, sem excepção.
As dúvidas... São algo terrível. Fecham-se dentro de nós, prendem-nos o movimento e o pensamento, minam a nossa personalidade, assolam-nos com sentimentos que não queremos sentir. Mas elas estão lá. E enquanto o tempo não passava, as minhas também estavam lá. Impenetráveis. Impassíveis. Frias. Queria expulsá-las.
Pergunto-me se a mudança é, de facto, melhor. É outra daquelas coisas que nos ultrapassam. Se a vida nos corre mal, a mudança deve ser bem-vinda, e não se reclama contra ela.
Mas se a vida nos é confortável, se nos corre bem, se estamos bem posicionados no tabuleiro de xadrez... Como eu estava... Tememos a mudança. Tememos o que ela acarreta. Tememos a nova adaptação, o novo mundo. Eu receava tudo isso. E receava-o acima de qualquer outra coisa.
Eu era apenas mais um no mundo... Outro ponto insignificante nessa confusão sórdida que é a sociedade.
Mas as minhas dúvidas... Não sabia se alguém, em algum lado, poderia duvidar tanto como eu. Parecia-me impossível, irracional.
Mas não era verdade.
Muitas vezes pensamos que somos os mais sofridos. É um clássico do drama. Está aí a resposta. Drama. É isso que somos. Um drama, um teatro representado constantemente. Uma luta de animais selvagens onde ganha quem for o último a conseguir manter-se de pé na rocha.
E eu não tinha ganho. Tinha caído, juntamente com outros, num abismo de medos, de dúvidas.
Hoje vejo isto como a natureza. Os problemas rebentam, como as ondas, e as pessoas estão lá para as receber, como a areia.
A dúvidas caem, como a chuva, e as pessoas têm de saber lavar-se delas, como a pedra fria.
A esperança nasce de onde menos se espera, como uma pequena flor por entre um baixio escondido, e temos de saber apreciá-la e tratar dela.
Os animais lutam, ajudam-se, evoluem, aprendem, tal como os humanos o fazem.
E todos assistimos a isto, e todos assistimos à mudança. Porque não há volta a dar, por mais que nos entristeçamos e pensemos que temos saudades do que passou, do que lá vai - como eu tinha, aliás, e muitas! - a vida é aquela bolinha na roleta do casino, com toda a gente em volta a olhar, com toda a gente a rezar para que ela pare no nosso buraquinho, como desejávamos...
E a bolinha acaba por parar, não no nosso, mas no de outra pessoa. Que por sua vez, viu a bolinha a cair no buraco de outra pessoa e se entristeceu também.
Não o conseguimos controlar. Nunca.
domingo, 26 de julho de 2009
Anjo
Se as palavras fossem coloridas, podíamos pintá-las e ficar a contemplar a sua beleza... Mas as palavras não são coloridas, são de beleza efémera. Dizem-se, sentem-se, e depois murcham até não serem mais nada...
Muitas vezes, são as raízes que prendem as palavras aos gestos, às vontades, aos medos, e chegam a passar-se anos até que se consigam libertar e florir, ainda que a sua beleza seja efémera.
Há palavras muito bonitas, como filho, por exemplo, ou pai, ou mãe, amigo ou irmão, irmã e tantas outras. Todas elas têm uma beleza muito particular que as faz ser diferentes entre si, mas iguais na sua beleza.
Não há palavras mais bonitas, ou mais perfeitas, ou mais normais e vulgares; há palavras diferentes e é na sua diferença que todas são palavras. A escolha é de cada um.
Mesmo que possamos pensar que não conhecemos algumas palavras - ou que conhecemos mas temos medo de usá-las, medo de com elas ferir alguém que amamos muito, medo que sejam tão duras essas palavras que nos atraiçoem, que nos façam mentir, mesmo assim...
Mesmo assim, todas as palavras passam no tribunal da verdade, e só a vida as pode proteger.
in Teatro "Segredos", Junho 2008, Teatro Mundial
Muitas vezes, são as raízes que prendem as palavras aos gestos, às vontades, aos medos, e chegam a passar-se anos até que se consigam libertar e florir, ainda que a sua beleza seja efémera.
Há palavras muito bonitas, como filho, por exemplo, ou pai, ou mãe, amigo ou irmão, irmã e tantas outras. Todas elas têm uma beleza muito particular que as faz ser diferentes entre si, mas iguais na sua beleza.
Não há palavras mais bonitas, ou mais perfeitas, ou mais normais e vulgares; há palavras diferentes e é na sua diferença que todas são palavras. A escolha é de cada um.
Mesmo que possamos pensar que não conhecemos algumas palavras - ou que conhecemos mas temos medo de usá-las, medo de com elas ferir alguém que amamos muito, medo que sejam tão duras essas palavras que nos atraiçoem, que nos façam mentir, mesmo assim...
Mesmo assim, todas as palavras passam no tribunal da verdade, e só a vida as pode proteger.
in Teatro "Segredos", Junho 2008, Teatro Mundial
domingo, 31 de maio de 2009
Perfeição Envolta
O sol queimava a pele dos corajosos para o enfrentarem. Ele decidira manter-se dentro de casa até eles chegarem, por preguiça e desejo por um ambiente fresco. E esperou. Passado algum tempo, a campainha tocou, soando por toda a casa. Ela chegara. E convidou-a a entrar. Falaram, falaram até chegarem outras duas pessoas, que da mesma forma entraram e falaram.
O jardim oferecia sombras convidativas, que excluíam pelo menos o abrasivo perigo do sol directo. Decidiram sentar-se preguiçosamente, estendidos na relva verde e no meio de insectos e borboletas que por ali esvoaçavam. O objectivo era rever alguma coisa importante, mas perderam-se no meio de risos banhados pelo calor. Puseram os livros de lado e entreteram-se com jogos que os distraíssem do mundo lá fora - do mundo que os obrigava a encontrarem-se secretamente num jardim recôndito, rodeado por sebes altas.
E passaram a tarde, incógnitos no seio da amizade, na sensação de que esta se fortalecia com os mesmos sorrisos com que aumentava um amor proibido - e o mais apetecido.
Assim, quando essa aventura misteriosa que é a noite deu sinais de querer estender o seu manto velado sobre os domínios de Apolo, decidiram que sairiam do jardim para as ruas, desertas pelos últimos vestígios de um calor dominante. E assim fizeram, levando com eles risos e promessas de repetição. Foi quando se dirigiram a casa dela, ansiosos por uma paragem. As fontes cantavam a sua melodia aquática, rodeadas de jardins floridos e uma piscina que entoava a chamada das sereias para aqueles que haviam passado o dia sobre os braços do Sol.
Entraram. Entraram os quatro para a fresca escuridão de uma casa coberta de pedra e cal. E ela sentou-se e tocou, tocou melodias que ressoavam pela casa, pelo jardim, pelo mundo. Ele sentara-se, combalido com dores de exercícios passados, mas atento ao som que aquelas mãos conseguiam fazer penetrar directamente no coração dos presentes. E os outros dois sorriam, ouviam, sentiam-se maravilhados por uma música que deveria ser ouvida ao longe. Notas graves eram tocadas à medida que ele gozava com o instrumento; e ela era ensinada pela melhor amiga.
Nessa altura, já um pouco fartos de uma aprendizagem inútil (mas divertida), eles os dois dirigiram-se à varanda, onde o Sol já pouca vida tinha e fazia a sua espectacular saída no horizonte. E aí falaram de assuntos sérios, que os preocupavam, e ele assegurou o seu melhor amigo de que não era por falta de vontade dela, mas por assuntos de valores morais e importância maior. Era absolutamente necessário que ele entendesse, que percebesse a paixão escondida por entre aquelas rejeições e sorrisos de espera que o perturbavam.
E elas reapareceram, prontas para uma outra volta pelas ruas ainda desertas, que se despediam da luz do dia e davam lugar a uma escuridão convidativa. E assim foram. Desceram uma sinuosa estrada até chegarem a uma saída para um campo de golfe amplo, vazio. E correram os quatro, para a relva, para a areia, para minutos de frescura e mais sorrisos.
Quando saíram, voltaram a subir a sinuosa rua, e decidiram voltar à casa inicial para o jantar. Após a refeição relativamente pacífica, não se sentiam bem fechados em casa. Por esta altura, já a escuridão obtivera o seu maior prémio, e os quatro escolheram voltar a sair para a noite, para essa amante misteriosa que é a aventura.
E ao voltarem à saída para um outro campo de golfe pelo qual tinham passado há horas, penetraram nas suas profundezas, com uma agradável sensação assustadora de serem observados. Foi então que um grito cortou a noite, e correram de novo para as ruas vagamente iluminadas pela electricidade. O grito tinha vindo dela, que apanhara um susto com algo insignificante. Riram-se, e continuaram a descer a rua, prontos para entrar numa outra ramificação do campo de golfe, esta ainda mais escura e sombria. Andaram, percorreram o caminho que os levaria ao coração do campo de golfe, a uma área enorme e ampla, escura como breu mas iluminada por um subtil luar, e aí se sentaram, iluminados pelas suaves luzes dos pirilampos, que emanavam a beleza de duas mãos dadas, e de outras duas bocas abertas de par em par num enorme sorriso de dentes brancos.
E chegou a altura em que ela tinha de se ir embora, por causa da maldição horária. Ele decidiu acompanhá-la de novo à rua, deixando-os sozinhos para o destino poder trabalhar à vontade. E regressaram pelo caminho até à rua, indirectamente olhando por cima do ombro para concluir que, de facto, não estavam a ser seguidos nem observados no meio das sombras.
Ela foi-se embora, acenando, e só restava ao rapaz regressar ao campo de golfe passado um bom bocado, pensando que, se o destino era decente, se gostava de ver duas almas perfeitas entrelaçadas nas cordas da paixão, havia feito alguma coisa, alguma demonstração de... E regressou, profundamente assustado pela completa ausência de seres vivos nas ruas, pela ausência de barulhos, que o levava a formar imagens horríveis na sua imaginação. Quando chegou à entrada do campo, sentiu-se aliviado e ainda mais assustado, pois faltava agora começar a percorrer o caminho que o levaria até à artéria onde estavam sentadas as outras duas pessoas. Tentou demorar-se, mas o seu olho detectava perigos imaginários por trás de cada arbusto, cada árvore. Apressou o passo e ouviu ao longe o riso inconfundível da rapariga. Sentiu-se um pouco acalmado.
Quando chegou, sentou-se ao lado deles e começou a falar. E eles explicaram, por entre risos cúmplices, que não. Não. Nada. Ele ficou perplexo, confuso por terem desperdiçado uma oportunidade fantástica. E riram-se de novo, por entre tentativas dele de roubos fogosos e os olhares que ela mandava e que enfeitiçavam o seu cabelo claro.
Levantaram-se e saíram do campo pelo outro lado. Desceram a principal rua, e a mais comprida do povoado. Ele sentia-se posto de parte, e sentia-se muito feliz por isso estar a acontecer, por era o que mais desejava, naquele contexto. As luzes iam e vinham, deixando-os constantemente nesse benefício amoroso que é a escuridão. Atravessaram uma ponte sobre uma estrada em construção, enorme, vazia, que fazia lembrar filmes vistos há muito tempo.
E foi aí que, sobre a forma de uma chamada telefónica, tiveram que voltar. Eles, corteses, consentiram em acompanhá-la a casa, voltando então a subir a comprida rua principal e a virar à esquerda para uma outra rua escondida. Chegaram a casa dela. Não entrariam, mas chegava a altura das despedidas. Ele despediu-se dela com um amigável beijo na bochecha, e depois teve a atenção de se fingir profusamente interessado numa placa que anunciava a construção breve de um qualquer condomínio. Mas pelo canto do olho observava o que se passava e sorria levemente, deixando-se levar por uma felicidade que o encontrava ao vê-los abraçados, como que eternamente. Mas separaram-se e, acenando uma última vez, ela entrou nos portões. Sem nada dizer, ambos os rapazes recomeçaram a caminhada. Mas uma batida de portão voltou-se a ouvir, e um conjunto de passos leves ao mesmo tempo.
E então, a felicidade atingiu-o mais que nunca. Não havia parado de andar nem olhado para trás, mas não precisava de o fazer. Ela voltara para uma derradeira despedida, para colocar num beijo tudo o que quisera fazer durante o dia. E passado um tempo, talvez uns segundos, talvez umas horas, talvez anos a fio, ele percebeu que o seu amigo voltara a acompanhá-lo, e ambos sorriram.
A noite executara o seu ofício requintado. Trouxera o êxito de um fim de dia maravilhoso, acompanhado de um único e poderoso beijo. Não era preciso dizer nada. O calor da noite dizia tudo o que era necessário, e ele sorriu de novo. Não queria que a noite acabasse. Havia sido perfeita.
O jardim oferecia sombras convidativas, que excluíam pelo menos o abrasivo perigo do sol directo. Decidiram sentar-se preguiçosamente, estendidos na relva verde e no meio de insectos e borboletas que por ali esvoaçavam. O objectivo era rever alguma coisa importante, mas perderam-se no meio de risos banhados pelo calor. Puseram os livros de lado e entreteram-se com jogos que os distraíssem do mundo lá fora - do mundo que os obrigava a encontrarem-se secretamente num jardim recôndito, rodeado por sebes altas.
E passaram a tarde, incógnitos no seio da amizade, na sensação de que esta se fortalecia com os mesmos sorrisos com que aumentava um amor proibido - e o mais apetecido.
Assim, quando essa aventura misteriosa que é a noite deu sinais de querer estender o seu manto velado sobre os domínios de Apolo, decidiram que sairiam do jardim para as ruas, desertas pelos últimos vestígios de um calor dominante. E assim fizeram, levando com eles risos e promessas de repetição. Foi quando se dirigiram a casa dela, ansiosos por uma paragem. As fontes cantavam a sua melodia aquática, rodeadas de jardins floridos e uma piscina que entoava a chamada das sereias para aqueles que haviam passado o dia sobre os braços do Sol.
Entraram. Entraram os quatro para a fresca escuridão de uma casa coberta de pedra e cal. E ela sentou-se e tocou, tocou melodias que ressoavam pela casa, pelo jardim, pelo mundo. Ele sentara-se, combalido com dores de exercícios passados, mas atento ao som que aquelas mãos conseguiam fazer penetrar directamente no coração dos presentes. E os outros dois sorriam, ouviam, sentiam-se maravilhados por uma música que deveria ser ouvida ao longe. Notas graves eram tocadas à medida que ele gozava com o instrumento; e ela era ensinada pela melhor amiga.
Nessa altura, já um pouco fartos de uma aprendizagem inútil (mas divertida), eles os dois dirigiram-se à varanda, onde o Sol já pouca vida tinha e fazia a sua espectacular saída no horizonte. E aí falaram de assuntos sérios, que os preocupavam, e ele assegurou o seu melhor amigo de que não era por falta de vontade dela, mas por assuntos de valores morais e importância maior. Era absolutamente necessário que ele entendesse, que percebesse a paixão escondida por entre aquelas rejeições e sorrisos de espera que o perturbavam.
E elas reapareceram, prontas para uma outra volta pelas ruas ainda desertas, que se despediam da luz do dia e davam lugar a uma escuridão convidativa. E assim foram. Desceram uma sinuosa estrada até chegarem a uma saída para um campo de golfe amplo, vazio. E correram os quatro, para a relva, para a areia, para minutos de frescura e mais sorrisos.
Quando saíram, voltaram a subir a sinuosa rua, e decidiram voltar à casa inicial para o jantar. Após a refeição relativamente pacífica, não se sentiam bem fechados em casa. Por esta altura, já a escuridão obtivera o seu maior prémio, e os quatro escolheram voltar a sair para a noite, para essa amante misteriosa que é a aventura.
E ao voltarem à saída para um outro campo de golfe pelo qual tinham passado há horas, penetraram nas suas profundezas, com uma agradável sensação assustadora de serem observados. Foi então que um grito cortou a noite, e correram de novo para as ruas vagamente iluminadas pela electricidade. O grito tinha vindo dela, que apanhara um susto com algo insignificante. Riram-se, e continuaram a descer a rua, prontos para entrar numa outra ramificação do campo de golfe, esta ainda mais escura e sombria. Andaram, percorreram o caminho que os levaria ao coração do campo de golfe, a uma área enorme e ampla, escura como breu mas iluminada por um subtil luar, e aí se sentaram, iluminados pelas suaves luzes dos pirilampos, que emanavam a beleza de duas mãos dadas, e de outras duas bocas abertas de par em par num enorme sorriso de dentes brancos.
E chegou a altura em que ela tinha de se ir embora, por causa da maldição horária. Ele decidiu acompanhá-la de novo à rua, deixando-os sozinhos para o destino poder trabalhar à vontade. E regressaram pelo caminho até à rua, indirectamente olhando por cima do ombro para concluir que, de facto, não estavam a ser seguidos nem observados no meio das sombras.
Ela foi-se embora, acenando, e só restava ao rapaz regressar ao campo de golfe passado um bom bocado, pensando que, se o destino era decente, se gostava de ver duas almas perfeitas entrelaçadas nas cordas da paixão, havia feito alguma coisa, alguma demonstração de... E regressou, profundamente assustado pela completa ausência de seres vivos nas ruas, pela ausência de barulhos, que o levava a formar imagens horríveis na sua imaginação. Quando chegou à entrada do campo, sentiu-se aliviado e ainda mais assustado, pois faltava agora começar a percorrer o caminho que o levaria até à artéria onde estavam sentadas as outras duas pessoas. Tentou demorar-se, mas o seu olho detectava perigos imaginários por trás de cada arbusto, cada árvore. Apressou o passo e ouviu ao longe o riso inconfundível da rapariga. Sentiu-se um pouco acalmado.
Quando chegou, sentou-se ao lado deles e começou a falar. E eles explicaram, por entre risos cúmplices, que não. Não. Nada. Ele ficou perplexo, confuso por terem desperdiçado uma oportunidade fantástica. E riram-se de novo, por entre tentativas dele de roubos fogosos e os olhares que ela mandava e que enfeitiçavam o seu cabelo claro.
Levantaram-se e saíram do campo pelo outro lado. Desceram a principal rua, e a mais comprida do povoado. Ele sentia-se posto de parte, e sentia-se muito feliz por isso estar a acontecer, por era o que mais desejava, naquele contexto. As luzes iam e vinham, deixando-os constantemente nesse benefício amoroso que é a escuridão. Atravessaram uma ponte sobre uma estrada em construção, enorme, vazia, que fazia lembrar filmes vistos há muito tempo.
E foi aí que, sobre a forma de uma chamada telefónica, tiveram que voltar. Eles, corteses, consentiram em acompanhá-la a casa, voltando então a subir a comprida rua principal e a virar à esquerda para uma outra rua escondida. Chegaram a casa dela. Não entrariam, mas chegava a altura das despedidas. Ele despediu-se dela com um amigável beijo na bochecha, e depois teve a atenção de se fingir profusamente interessado numa placa que anunciava a construção breve de um qualquer condomínio. Mas pelo canto do olho observava o que se passava e sorria levemente, deixando-se levar por uma felicidade que o encontrava ao vê-los abraçados, como que eternamente. Mas separaram-se e, acenando uma última vez, ela entrou nos portões. Sem nada dizer, ambos os rapazes recomeçaram a caminhada. Mas uma batida de portão voltou-se a ouvir, e um conjunto de passos leves ao mesmo tempo.
E então, a felicidade atingiu-o mais que nunca. Não havia parado de andar nem olhado para trás, mas não precisava de o fazer. Ela voltara para uma derradeira despedida, para colocar num beijo tudo o que quisera fazer durante o dia. E passado um tempo, talvez uns segundos, talvez umas horas, talvez anos a fio, ele percebeu que o seu amigo voltara a acompanhá-lo, e ambos sorriram.
A noite executara o seu ofício requintado. Trouxera o êxito de um fim de dia maravilhoso, acompanhado de um único e poderoso beijo. Não era preciso dizer nada. O calor da noite dizia tudo o que era necessário, e ele sorriu de novo. Não queria que a noite acabasse. Havia sido perfeita.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
As salas passadas
A preto e branco esquecidas
Num passado remexidas
Mas as tardes recordadas
Que juntos, criámos perdidos
E as expressões de amigos
Que nos fazem evocar divertidos
Tantas memórias apagadas
Mas tão presentes mesmo assim...
Leva-me isto a dizer, portanto:
Que em catorze anos de vida
Nunca tive outra amizade
Como esta...
Tão vivida.
A preto e branco esquecidas
Num passado remexidas
Mas as tardes recordadas
Que juntos, criámos perdidos
E as expressões de amigos
Que nos fazem evocar divertidos
Tantas memórias apagadas
Mas tão presentes mesmo assim...
Leva-me isto a dizer, portanto:
Que em catorze anos de vida
Nunca tive outra amizade
Como esta...
Tão vivida.
domingo, 12 de abril de 2009
Transportes Públicos
Antes de mais, e para aquecer o público antes de começar a canção, há que referir que eu sou um menino da cidade. Um mero eufemismo para "queque", bem se vê. A verdade é que desde tenra idade que sou levado pomposamente de carro para onde quero e/ou preciso, sem desconfortos e com a máxima comodidade de uma viatura particular. E sempre me contentei desta forma.
E é também por isso que os transportes públicos me fascinam. Encantam-me. Apaixonam-me. É pura ficção científica.
Há uns meses, andava num clube de teatro que ensaiava em Lisboa. Ora, para me irem buscar e pôr era chato como tudo - já se vê, desde Sintra/São Pedro a Picoas ainda são uns kilómetros e de carro hoje em dia as pessoas apanham mais ataques cardíacos que a comerem Big Macs como se não houvesse amanhã (se bem que estes têm de ter os seus créditos em letra maiúscula nas nossas doenças "cardio"...).
Portanto, começaram a deixar-me na estação do Estoril para eu ir de comboio até ao Cais do Sodré, e daí apanhar o metro para Picoas. Ao início a ideia não me agradava - sozinho, ou melhor, com mais mil e uma pessoas que eu nunca tinha visto e que, aos meus olhos, bem podiam ser assassinos, etc etc etc. Mas fui. E adorei. Adorei o metro. E adorei o comboio - desde as máquinas de bilhetes automáticos a escolher um lugar a observar as pessoas perto de mim. E safei-me sempre a horas - para lá e para cá.
Entretanto o teatro acabou e com ele acabaram as viagens de transportes, porque já não tinha de ir para Lisboa. Mas ainda há pouco tempo os meus amigos convidaram-me para ir passar a tarde com eles a Cascais. Estava em casa do meu pai, mas ele não podia levar-me devido à mais recente sensação - os mais chegados "Padeleiros" sabem a que me refiro...
E vi aí uma oportunidade; metia-me no comboio até Cascais, lá saía, e depois... Depois logo se via!
E assim fiz. Quando lá cheguei, encontrei os meus amigos juntos num grupo na Rua Direita e fomos dar um passeio. Inevitavelmente, começaram a faltar coisas para fazer depois de calcorrear Cascais e suas ruas a pé. Foi então que alguém sugeriu irmos para casa de um deles, na Quinta da Bicuda. Ora, da Rua Direita à Bicuda ainda é um esticão a pé e decidimos apanhar o famoso autocarro BusCas (popularmente conhecido como buscas), que parava lá perto. Eu, que nunca tinha andado de autocarro mais que uma dúzia de vezes, fiquei outra vez fascinado, com a forma como podia picar o bilhete logo a entrada. (Sou mesmo parolo...)
Na vinda de volta, a mesma coisa. Agora sozinho, porque os meus amigos ora iam de bicicleta ora de carro porque moravam longe, fui a pé até ao pé do Dramático, onde apanhei o BusCas de novo para a estação. Daí, apanhei o comboio até S. Pedro. Estava em casa quase às 8.
Uma vez durante o Verão de 2008, ao fim da tarde, estava eu a voltar de mais uma sessão de ensaios de teatro. Tinha que apanhar o metro até ao Cais do Sodré, onde iria apanhar o comboio até ao Estoril - onde a minha mãe me ia apanhar. Esperto como sou, decidi parar antes de entrar no metro para uma "merendinha". Lá paguei o lanche sem sequer olhar para o dinheiro que me restava e fui andando até à estação de Picoas. Quando lá cheguei, para comprar o bilhete, saquei um punhado de moedas dos bolsos e comprei o pedacinho de papel. Mal eu sabia que, chegando ao Cais do Sodré, não tinha dinheiro para mandar cantar um cego, e já não eram horas de se andar para ali a passear. Liguei à minha mãe para me vir buscar, mas àquelas horas o trânsito estava no seu melhor e ela disse-me para tentar resolver a situação (noutras palavras, "desenrasca-te"). Eu, inocente rapaz, decidi então sentar-me ao lado de uma senhora de aspecto antigo que ali repousava num banco. E disse eu então, da cabeça aos pés em roupa de marca...
"Eu sei que isto vai parecer estranho, mas... Eu não tenho dinheiro para voltar para casa... E precisava de comprar o bilhete de comboio..."
E a senhora lá olhou para mim de soslaio, abriu a carteira e me deu dois euritos, que eu aproveitei para comprar um bilhete de volta ao lar (a única máquina disponível era a mais longe da senhora - o destino estava determinado em fazer-me parecer um ladrão sem-abrigo). Voltei para devolver o troco e desfazer-me em desculpas e obrigados, e desculpas e obrigados. Mas como a sorte sempre me bafejou, quando cheguei ao comboio para entrar as portas estavam a fechar-se, e tive de esperar por outro que (lá estava a sorte), só chegava daí a 20 minutos e que não ia até ao Estoril, parando numa estação anterior na qual eu teria de apanhar outro metro (facto do qual só me apercebi quando o comboio estava quase voltar a andar para trás na dita estação).
E assim cheguei ao Estoril, a minha mãe à minha espera, eu a desfazer-me a rir.
Nada disso me tirou a loucura pelos transportes públicos, mas mesmo assim... Para a próxima como em casa.
E é também por isso que os transportes públicos me fascinam. Encantam-me. Apaixonam-me. É pura ficção científica.
Há uns meses, andava num clube de teatro que ensaiava em Lisboa. Ora, para me irem buscar e pôr era chato como tudo - já se vê, desde Sintra/São Pedro a Picoas ainda são uns kilómetros e de carro hoje em dia as pessoas apanham mais ataques cardíacos que a comerem Big Macs como se não houvesse amanhã (se bem que estes têm de ter os seus créditos em letra maiúscula nas nossas doenças "cardio"...).
Portanto, começaram a deixar-me na estação do Estoril para eu ir de comboio até ao Cais do Sodré, e daí apanhar o metro para Picoas. Ao início a ideia não me agradava - sozinho, ou melhor, com mais mil e uma pessoas que eu nunca tinha visto e que, aos meus olhos, bem podiam ser assassinos, etc etc etc. Mas fui. E adorei. Adorei o metro. E adorei o comboio - desde as máquinas de bilhetes automáticos a escolher um lugar a observar as pessoas perto de mim. E safei-me sempre a horas - para lá e para cá.
Entretanto o teatro acabou e com ele acabaram as viagens de transportes, porque já não tinha de ir para Lisboa. Mas ainda há pouco tempo os meus amigos convidaram-me para ir passar a tarde com eles a Cascais. Estava em casa do meu pai, mas ele não podia levar-me devido à mais recente sensação - os mais chegados "Padeleiros" sabem a que me refiro...
E vi aí uma oportunidade; metia-me no comboio até Cascais, lá saía, e depois... Depois logo se via!
E assim fiz. Quando lá cheguei, encontrei os meus amigos juntos num grupo na Rua Direita e fomos dar um passeio. Inevitavelmente, começaram a faltar coisas para fazer depois de calcorrear Cascais e suas ruas a pé. Foi então que alguém sugeriu irmos para casa de um deles, na Quinta da Bicuda. Ora, da Rua Direita à Bicuda ainda é um esticão a pé e decidimos apanhar o famoso autocarro BusCas (popularmente conhecido como buscas), que parava lá perto. Eu, que nunca tinha andado de autocarro mais que uma dúzia de vezes, fiquei outra vez fascinado, com a forma como podia picar o bilhete logo a entrada. (Sou mesmo parolo...)
Na vinda de volta, a mesma coisa. Agora sozinho, porque os meus amigos ora iam de bicicleta ora de carro porque moravam longe, fui a pé até ao pé do Dramático, onde apanhei o BusCas de novo para a estação. Daí, apanhei o comboio até S. Pedro. Estava em casa quase às 8.
Uma vez durante o Verão de 2008, ao fim da tarde, estava eu a voltar de mais uma sessão de ensaios de teatro. Tinha que apanhar o metro até ao Cais do Sodré, onde iria apanhar o comboio até ao Estoril - onde a minha mãe me ia apanhar. Esperto como sou, decidi parar antes de entrar no metro para uma "merendinha". Lá paguei o lanche sem sequer olhar para o dinheiro que me restava e fui andando até à estação de Picoas. Quando lá cheguei, para comprar o bilhete, saquei um punhado de moedas dos bolsos e comprei o pedacinho de papel. Mal eu sabia que, chegando ao Cais do Sodré, não tinha dinheiro para mandar cantar um cego, e já não eram horas de se andar para ali a passear. Liguei à minha mãe para me vir buscar, mas àquelas horas o trânsito estava no seu melhor e ela disse-me para tentar resolver a situação (noutras palavras, "desenrasca-te"). Eu, inocente rapaz, decidi então sentar-me ao lado de uma senhora de aspecto antigo que ali repousava num banco. E disse eu então, da cabeça aos pés em roupa de marca...
"Eu sei que isto vai parecer estranho, mas... Eu não tenho dinheiro para voltar para casa... E precisava de comprar o bilhete de comboio..."
E a senhora lá olhou para mim de soslaio, abriu a carteira e me deu dois euritos, que eu aproveitei para comprar um bilhete de volta ao lar (a única máquina disponível era a mais longe da senhora - o destino estava determinado em fazer-me parecer um ladrão sem-abrigo). Voltei para devolver o troco e desfazer-me em desculpas e obrigados, e desculpas e obrigados. Mas como a sorte sempre me bafejou, quando cheguei ao comboio para entrar as portas estavam a fechar-se, e tive de esperar por outro que (lá estava a sorte), só chegava daí a 20 minutos e que não ia até ao Estoril, parando numa estação anterior na qual eu teria de apanhar outro metro (facto do qual só me apercebi quando o comboio estava quase voltar a andar para trás na dita estação).
E assim cheguei ao Estoril, a minha mãe à minha espera, eu a desfazer-me a rir.
Nada disso me tirou a loucura pelos transportes públicos, mas mesmo assim... Para a próxima como em casa.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Apenas Diálogo
- É louco!
- Mas é um génio!
- Sim, mas a quem pode salvar o talento quando a loucura é tão premente?
- Ora, não percebe nada disto, meu caro. Ele é tão brilhante que ofusca a mente. E todos nós sabemos como tamanha inteligência pode... "toldar" a sensatez de uma pessoa.
- Não caio nessa. Quanto mais esperto, mas sensato deveria ser. Não concorda?
- De todo. Acho até o contrário. Quanto mais esperto, e mais genial, como é o caso, mais imprevisível deve ser um homem! E que graça teria o mundo se não desta forma?
- Ainda não me convenceu! Sinto-me ludibriado por esta arrebatadora forma de ser.
- Meu caro, não acha que está a reagir de forma exagerada? Deixe lá o rapaz ser como quer e mostrar o talento ao mundo, que nós cá nos contentamos com a nossa vida. Deixe-o lá ser louco, como você afirma, e mostrar ao mundo o génio que pode ser!
- Não acha que está a regá-lo com demasiados elogios? É por isso que ele ficou assim; deixou-se levar por essa inebriante onda de cumprimentos e palavras idílicas de toda a gente...
- Suponho que por "assim" queira dizer "maluco"...?
- Óbvio. Mas não posso negar que gosto da obra dele. É simplesmente deliciosa. No entanto...
- No entanto...?
- No entanto, nada. Não gosto de como ele é. Sem postura! Sem dignidade! Sem.. sem nada, percebe?
- E se ele tiver a sua própria dignidade?
- Ora, então essa foge muito aos padrões impostos!
- Talvez seja essa a ideia, meu caro amigo! Talvez seja isso mesmo que ele quer.
- Atenção?
- Sim... e não. Talvez queira simplesmente... destacar-se no meio de uma matilha de lobos esfomeados por cultura.
- Admiro o seu jogo de palavras, meu amigo, mas permaneço inabalável na minha opinião.
- Ah, essa sua tão vulgar opinião, meu caro.
- Acaso está a chamar-me obtuso?
- Entenda como quiser...!
- Ah, permita-me rir perante a sua forma de me olhar. Como eu pensam mil !
- Oh, sim, eu sei. Apenas gostava que não fosse assim.
- Tem então um longo caminho a percorrer, se pretende alterar o que a sociedade pensa e a forma como age.
- Talvez não tenha.
- Ah, deixe de ser sonhador. Ainda acaba como o rapaz de quem falámos. Que é, a propósito, completamente louco!
- Mas é um génio.
- Mas é um génio!
- Sim, mas a quem pode salvar o talento quando a loucura é tão premente?
- Ora, não percebe nada disto, meu caro. Ele é tão brilhante que ofusca a mente. E todos nós sabemos como tamanha inteligência pode... "toldar" a sensatez de uma pessoa.
- Não caio nessa. Quanto mais esperto, mas sensato deveria ser. Não concorda?
- De todo. Acho até o contrário. Quanto mais esperto, e mais genial, como é o caso, mais imprevisível deve ser um homem! E que graça teria o mundo se não desta forma?
- Ainda não me convenceu! Sinto-me ludibriado por esta arrebatadora forma de ser.
- Meu caro, não acha que está a reagir de forma exagerada? Deixe lá o rapaz ser como quer e mostrar o talento ao mundo, que nós cá nos contentamos com a nossa vida. Deixe-o lá ser louco, como você afirma, e mostrar ao mundo o génio que pode ser!
- Não acha que está a regá-lo com demasiados elogios? É por isso que ele ficou assim; deixou-se levar por essa inebriante onda de cumprimentos e palavras idílicas de toda a gente...
- Suponho que por "assim" queira dizer "maluco"...?
- Óbvio. Mas não posso negar que gosto da obra dele. É simplesmente deliciosa. No entanto...
- No entanto...?
- No entanto, nada. Não gosto de como ele é. Sem postura! Sem dignidade! Sem.. sem nada, percebe?
- E se ele tiver a sua própria dignidade?
- Ora, então essa foge muito aos padrões impostos!
- Talvez seja essa a ideia, meu caro amigo! Talvez seja isso mesmo que ele quer.
- Atenção?
- Sim... e não. Talvez queira simplesmente... destacar-se no meio de uma matilha de lobos esfomeados por cultura.
- Admiro o seu jogo de palavras, meu amigo, mas permaneço inabalável na minha opinião.
- Ah, essa sua tão vulgar opinião, meu caro.
- Acaso está a chamar-me obtuso?
- Entenda como quiser...!
- Ah, permita-me rir perante a sua forma de me olhar. Como eu pensam mil !
- Oh, sim, eu sei. Apenas gostava que não fosse assim.
- Tem então um longo caminho a percorrer, se pretende alterar o que a sociedade pensa e a forma como age.
- Talvez não tenha.
- Ah, deixe de ser sonhador. Ainda acaba como o rapaz de quem falámos. Que é, a propósito, completamente louco!
- Mas é um génio.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
História de Portugal Resumida em Verso
Portugal, honrada glória
Contra os mouros a vitória
Levou à Coroa portuguesa
A títulos grandes e nobreza
Feudalismo e vassalos
Em campos e castelos trancados
Sob as ordens de fidalgos
Em poder ensolarados
A Igreja controlava
A fé e leis de nosso reino
Ao nosso Rei aconselhava
E ao nosso povo ensinava
Um bom e submisso treino
Os pobres lá trabalhavam
De impostos carregados
No Palácio, festas passavam
Para os nobres, tão amados
Veio a peste e dizimou
Povo pelo continente
Mortes dor e sofrimento
Arrasaram tanta gente
A coisa melhorou
E em barcos se embarcou
Capitães e marinheiros
Para buscar riquezas escondidas
Da capital mensageiros
Atrás de terras perdidas
Dobraram-se cabos e baías
E os negros viram chegar
Sob cantos e sinfonias
Os portugueses fascinados
Levávamos a Bíblia na mão
Com palavras evangélicas
E eles as terras e recursos.
De repente, na confusão
Tinham eles os discursos
E nós, por invasão
Sua propriedade e escravidão
Sobre vários continentes
Colónias fortes se fizeram
E Portugal era num repente
Uma potência desmedida
Com dinheiro para a vida!
Foram tempos de alegria
De moda, arte, arquitectura
De cortes, ouro e boa via
De admiração, de literatura
Veio a indústria retirar
Toda a glória adquirida
Pois já todo o santo país
Tinha colónia assumida
(E rendimentos assegurados!)
Foram tempos negros
De caos e invasões
Terramotos, turbilhões
Destruíram de lés a lés
Veio então um sujeito
De peruca, muito fino
Pôs ordem nisto, reconstruiu
Portugal de ponta a outra
Com ideias futuristas
Modernas e artistas
Lisboa renasceu
Para o mundo, qual senhora
Madame bela pareceu
Era milagre,ora ora!
Mesmo assim muito atrasado
Estava o nosso Portugal
Ao estrangeiro ainda atrelado
Por dívidas dependentes
Quais vícios obedientes
Chocámos com Inglaterra
P'ra ligar Angola a Moçambique
Do Cabo ao Cairo queriam terra
E recuámos logo a pique
A República atacou
Rei D. Carlos e herdeiro
Sem pudor assassinou
A monarquia em passeio
Veio então um novo regime
De presidente e votações
Fraco e instável, mas sublime
Desgraça às populações
Convidou-se então um homem
A economia ensinar
Estava em Coimbra perdido
Oliveira Salazar
O dinheiro então chegou
Sobre a forma de ditadura
Para os cofres, bom recheio
Para imprensa, só censura
Para afastar tudo isto,
E com um nome de Revolução,
Com flores - cravos mil
Veio o 25 de Abril!
Uma democracia em acção
Ganhou lugar, pois então
Partidos corruptos, infiéis
Ocuparam os nossos batéis.
Portugal ainda está atrasado
Ninguém o pode negar
Mas com tanto problema atado
Quem nos pode criticar?
Miguel Pais
Contra os mouros a vitória
Levou à Coroa portuguesa
A títulos grandes e nobreza
Feudalismo e vassalos
Em campos e castelos trancados
Sob as ordens de fidalgos
Em poder ensolarados
A Igreja controlava
A fé e leis de nosso reino
Ao nosso Rei aconselhava
E ao nosso povo ensinava
Um bom e submisso treino
Os pobres lá trabalhavam
De impostos carregados
No Palácio, festas passavam
Para os nobres, tão amados
Veio a peste e dizimou
Povo pelo continente
Mortes dor e sofrimento
Arrasaram tanta gente
A coisa melhorou
E em barcos se embarcou
Capitães e marinheiros
Para buscar riquezas escondidas
Da capital mensageiros
Atrás de terras perdidas
Dobraram-se cabos e baías
E os negros viram chegar
Sob cantos e sinfonias
Os portugueses fascinados
Levávamos a Bíblia na mão
Com palavras evangélicas
E eles as terras e recursos.
De repente, na confusão
Tinham eles os discursos
E nós, por invasão
Sua propriedade e escravidão
Sobre vários continentes
Colónias fortes se fizeram
E Portugal era num repente
Uma potência desmedida
Com dinheiro para a vida!
Foram tempos de alegria
De moda, arte, arquitectura
De cortes, ouro e boa via
De admiração, de literatura
Veio a indústria retirar
Toda a glória adquirida
Pois já todo o santo país
Tinha colónia assumida
(E rendimentos assegurados!)
Foram tempos negros
De caos e invasões
Terramotos, turbilhões
Destruíram de lés a lés
Veio então um sujeito
De peruca, muito fino
Pôs ordem nisto, reconstruiu
Portugal de ponta a outra
Com ideias futuristas
Modernas e artistas
Lisboa renasceu
Para o mundo, qual senhora
Madame bela pareceu
Era milagre,ora ora!
Mesmo assim muito atrasado
Estava o nosso Portugal
Ao estrangeiro ainda atrelado
Por dívidas dependentes
Quais vícios obedientes
Chocámos com Inglaterra
P'ra ligar Angola a Moçambique
Do Cabo ao Cairo queriam terra
E recuámos logo a pique
A República atacou
Rei D. Carlos e herdeiro
Sem pudor assassinou
A monarquia em passeio
Veio então um novo regime
De presidente e votações
Fraco e instável, mas sublime
Desgraça às populações
Convidou-se então um homem
A economia ensinar
Estava em Coimbra perdido
Oliveira Salazar
O dinheiro então chegou
Sobre a forma de ditadura
Para os cofres, bom recheio
Para imprensa, só censura
Para afastar tudo isto,
E com um nome de Revolução,
Com flores - cravos mil
Veio o 25 de Abril!
Uma democracia em acção
Ganhou lugar, pois então
Partidos corruptos, infiéis
Ocuparam os nossos batéis.
Portugal ainda está atrasado
Ninguém o pode negar
Mas com tanto problema atado
Quem nos pode criticar?
Miguel Pais
sábado, 3 de janeiro de 2009
Desejos
Estamos noutro ano
Noutro mundo
Noutro lugar, mais recente, menos sujo
Ou não?
Estaremos afinal no mesmo lugar?
Depois de tanto desejo de felicidade
De amor, saúde, vontade para sonhar
De melhoras à sociedade
De dinheiro para gastar
De mais amigos e amizade
Sim, estamos no mesmo lugar.
Continuamos sós, continuamos nós
Somos nós, contra o mundo
Num segundo com a voz
No outro em silêncio
Sim, estamos no mesmo lugar
Então, já tinham percebido
Não finjam ficar para trás
Não finjam desejar
Não queiram pensar, aliás
Que o pensamento é proibido
Bem, continuemos então
Para a frente, a andar
E ao mesmo tempo
Não saiamos do lugar.
Feliz 2009 a todos
Noutro mundo
Noutro lugar, mais recente, menos sujo
Ou não?
Estaremos afinal no mesmo lugar?
Depois de tanto desejo de felicidade
De amor, saúde, vontade para sonhar
De melhoras à sociedade
De dinheiro para gastar
De mais amigos e amizade
Sim, estamos no mesmo lugar.
Continuamos sós, continuamos nós
Somos nós, contra o mundo
Num segundo com a voz
No outro em silêncio
Sim, estamos no mesmo lugar
Então, já tinham percebido
Não finjam ficar para trás
Não finjam desejar
Não queiram pensar, aliás
Que o pensamento é proibido
Bem, continuemos então
Para a frente, a andar
E ao mesmo tempo
Não saiamos do lugar.
Feliz 2009 a todos
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